OZONIOTERAPIA E NEUROPROTEÇÃO: EVIDÊNCIAS NO DEFICIT COGNITIVO, ALZHEIMER E DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS

Manual de Estudo Completo para Médicos, Profissionais de Saúde e Pesquisadores


PRÓLOGO: O Paradoxo da Molécula de Três Oxigênios

A demência é, hoje, um dos maiores desafios da medicina contemporânea. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 57 milhões de pessoas viviam com algum tipo de demência em 2021 e projeta que esse número se aproximará de 139 milhões em 2050. A Doença de Alzheimer responde, sozinha, por 60 a 70% desses casos. É uma das principais causas de morte nos países desenvolvidos e a condição que mais consome recursos de cuidadores no planeta. Em uma realidade demográfica em que a expectativa de vida cresce sem a contrapartida de um envelhecimento cerebral saudável, a pressão clínica e científica por intervenções efetivas é enorme.

Apesar disso, o arsenal terapêutico tradicional permanece, em larga medida, decepcionante. Donepezila, rivastigmina, galantamina e memantina existem há mais de 20 anos. Todas oferecem benefício modesto e temporário sobre a cognição e nenhuma modifica o curso da doença: o paciente continua declinando. Os anticorpos anti-amiloide — lecanemab e donanemab — trouxeram entusiasmo recente por atacarem a patologia amiloide diretamente, mas a realidade clínica é sóbria. O lecanemab reduz o declínio cognitivo em 27% no CDR-SB, o que corresponde a uma diferença de aproximadamente 0,5 ponto em uma escala de 18 pontos. O ganho é estatisticamente significativo e clinicamente questionável. Junto com ele vêm o risco de ARIA — 12,6% de edema cerebral e 17,3% de micro-hemorragias — e um custo de US$ 26 mil por ano de tratamento. O paradigma de atacar um único alvo molecular tem entregado, na prática, retornos decrescentes.

É nesse contexto que o paradigma multifatorial proposto por Dale Bredesen, conhecido como ReCODE, faz sentido conceitual: a neurodegeneração não é uma cascata linear que pode ser interrompida em um ponto, mas uma rede de cascatas interconectadas — estresse oxidativo, neuroinflamação crônica, disfunção mitocondrial, hipoperfusão cerebral, falha de autofagia, déficit de neurotrofinas, disrupção da barreira hematoencefálica. Tapar um "buraco no telhado" não interrompe a inundação. É necessária uma abordagem que atue simultaneamente em múltiplos alvos upstream. E é precisamente nesse espaço que o ozônio médico se inscreve: uma intervenção sistêmica de baixo custo e alto perfil de segurança, capaz de modular ao mesmo tempo a via Nrf2, a via NF-kB, a perfusão cerebral, a autofagia e o suporte neurotrófico — um conjunto de efeitos que praticamente nenhuma molécula isolada do arsenal convencional reproduz.

Caso Clínico Introdutório

A paciente é uma professora aposentada de 72 anos. Há aproximadamente 2 anos, a família começou a notar episódios de esquecimento progressivo: repetia perguntas, esquecia compromissos, perdia o fio de leituras longas. Veio à consulta acompanhada da filha. O exame mental detalhado mostra MoCA de 23 pontos — abaixo do ponto de corte habitual de 26, compatível com comprometimento cognitivo leve. O MMSE, mais grosseiro, permaneceu em 28 e poderia ter passado despercebido em uma triagem superficial. A avaliação inclui um item que muitos colegas ainda subestimam: a função olfatória. A paciente relata, espontaneamente, que "perdeu o gosto do café" — uma perda olfatória sutil, mas inequívoca quando questionada de forma dirigida. A ressonância mostra atrofia hipocampal leve, compatível com a faixa etária. Os marcadores liquóricos sugerem patologia amiloide incipiente. A pergunta clínica imediata é o que oferecer a essa paciente além das opções convencionais cujo benefício, como vimos, é marginal.

Este livro foi escrito para responder a quatro perguntas que esse cenário coloca. Primeira: como uma molécula que, em alta dose e por via inalatória, é classicamente neurotóxica pode, em baixa dose e por via sistêmica, ser neuroprotetora? Segunda: quais os mecanismos moleculares concretos pelos quais o ozônio médico atua no sistema nervoso central? Terceira: qual é hoje a evidência clínica em humanos — não apenas pré-clínica em modelos animais — para justificar seu uso? Quarta: como, na prática, integrar a ozonioterapia ao tratamento convencional, dentro de protocolos multimodais como o ReCODE, e com que protocolos, em que doses, em que frequências?

A resposta a essas quatro perguntas é construída ao longo dos capítulos seguintes. Os Capítulos 1 e 2 estabelecem os fundamentos: o paradoxo histórico-conceitual da molécula e a fisiopatologia multifatorial da neurodegeneração que justifica intervenções multimodais. Os Capítulos 3 a 5 detalham os mecanismos moleculares — Nrf2/Keap1, NF-kB e neuroinflamação, oxigenação cerebral, autofagia, BDNF. Os Capítulos 6 e 7 percorrem a evidência pré-clínica e clínica disponível. O Capítulo 8 traduz tudo isso em protocolos práticos, contraindicações e perfis de segurança. Os apêndices reúnem material de consulta rápida.

A premissa do texto é uma só: separar a ciência do ruído. Todas as afirmações feitas aqui derivam de estudos publicados em journals indexados, com PMIDs verificáveis. Onde a evidência é forte, ela aparece. Onde a evidência é fraca ou ainda inexistente, isso é dito explicitamente. A ozonioterapia não é uma panaceia, e este livro não é um manifesto. É um manual de estudo construído para que o leitor — médico, pesquisador ou profissional de saúde — possa decidir, com base em dados, qual o lugar racional dessa intervenção no cuidado do paciente com declínio cognitivo.


CAPÍTULO 1: O Paradoxo do Ozônio — Fundamentos Históricos e Conceituais

1.1 Da poluição atmosférica ao uso médico — uma molécula, dois destinos

O ozônio é, do ponto de vista químico, uma molécula formada por três átomos de oxigênio (O₃) ligados em ângulo, instável e fortemente oxidante. Sua descoberta remonta a 1840, quando o químico alemão Christian Friedrich Schönbein identificou o "odor característico" gerado durante a eletrólise da água e propôs o nome ozônio, derivado do grego ozein — "cheirar". A história clínica da molécula é mais recente: o uso médico documentado começou na 1ª Guerra Mundial, quando Werkmeister o utilizou no tratamento de feridas infectadas, gangrena gasosa e fístulas em soldados, aproveitando suas propriedades antimicrobianas pronunciadas. Durante o século XX, a prática se consolidou principalmente na Europa, com a chamada escola italiana — liderada por Velio Bocci — sistematizando, a partir dos anos 1990, os mecanismos bioquímicos e os protocolos da ozonioterapia médica moderna.

A apresentação contemporânea do tema, contudo, precisa partir de uma distinção que organiza tudo o que vem depois: o destino biológico do ozônio depende dramaticamente da via de administração e da dose. A mesma molécula, em dois contextos diferentes, comporta-se como dois agentes opostos.

Por um lado, há o ozônio inalatório. Este é, inequivocamente, um poluente urbano neurotóxico. A literatura experimental sobre o tema é consistente. Valdés-Fuentes e colaboradores publicaram em 2024, no International Journal of Molecular Sciences, um estudo com 72 ratos expostos a 0,25 ppm de ozônio inalado durante 4 horas por dia, por períodos de 7 a 90 dias. O achado foi claro: acúmulo progressivo de α-sinucleína na substância negra, no jejuno e no cólon dos animais expostos, acompanhado de aumento de NF-kB e IL-17 e neuroinflamação crônica. Em outras palavras, a inalação crônica de ozônio em concentrações compatíveis com poluição urbana mimetiza, em modelo animal, a patologia da Doença de Parkinson. Valdés-Fuentes M, Rodriguez-Martinez E, Rivas-Arancibia S (2024). Int J Mol Sci. PMID: 38791561.

Marin-Castañeda e colaboradores complementaram esse quadro no mesmo ano, na revista Frontiers in Aging Neuroscience, detalhando os mecanismos moleculares da neurotoxicidade inalatória crônica: excesso de espécies reativas de oxigênio, disfunção mitocondrial, peroxidação lipídica e neuroinflamação propagada pelo eixo pulmão-cérebro bidirecional, em que mediadores inflamatórios pulmonares atingem o sistema nervoso central via circulação sistêmica e via aferentes vagais. Marin-Castañeda LA et al. (2024). Front Aging Neurosci. PMID: 39529750. A mensagem clínica desses trabalhos é direta: respirar ozônio em níveis urbanos elevados, por períodos prolongados, é prejudicial ao cérebro.

Por outro lado, há o ozônio médico — o objeto deste livro. Trata-se da mesma molécula, mas com características operacionais radicalmente diferentes. É administrado por via sistêmica controlada (auto-hemoterapia maior, auto-hemoterapia menor, insuflação retal, salina ozonizada) e nunca por inalação direta, que permanece terminantemente contraindicada. As concentrações utilizadas situam-se em uma faixa estreita de 10 a 80 μg/mL, geradas por equipamentos certificados a partir exclusivamente de oxigênio medicinal — jamais ar atmosférico, cuja oxidação geraria óxidos de nitrogênio tóxicos. O ozônio médico é, portanto, definido tanto pela substância quanto pelo dispositivo, pela via, pela dose e pelo protocolo. Em condições controladas, opera por princípios biológicos opostos aos da inalação crônica. É essa dualidade — uma molécula, dois destinos — que dá nome ao paradoxo do ozônio e que estrutura toda a discussão subsequente sobre seus efeitos no sistema nervoso central.

1.2 Hormese — a ciência do estresse benéfico controlado

A reconciliação entre os dois destinos da molécula passa por um conceito biológico bem estabelecido: a hormese. Trata-se da resposta bifásica dose-resposta descrita por Edward Calabrese e Linda Baldwin a partir da década de 1990, segundo a qual muitos agentes exercem efeitos opostos em doses baixas e altas. Em doses elevadas, são tóxicos; em doses baixas, estimulam respostas adaptativas que aumentam a resistência do organismo ao próprio agente e a outros estressores. A curva característica é em "J" invertido ou em U invertido, dependendo da convenção do eixo, e tem sido documentada para uma extensa lista de agentes — radiação ionizante, exercício físico, jejum, certos fitoquímicos e, como veremos, o ozônio sistêmico.

O artigo seminal que articulou a hormese ao ozônio é o de Velio Bocci, publicado em 2009 no Medical Research Reviews sob o título The ozone paradox. Bocci V (2009). Med Res Rev, 29(4):646-682. PMID: 19260079. A formulação central é a de que o ozônio é simultaneamente um oxidante forte e uma droga médica, e que essa aparente contradição só se resolve quando se considera dose, via e contexto. Quando reage com fluidos biológicos em concentrações controladas, o ozônio gera mensageiros secundários — principalmente peróxido de hidrogênio (H₂O₂) em níveis muito baixos e produtos de oxidação lipídica como o 4-hidroxinonenal (4-HNE) — que são captados por células-alvo e ativam vias endógenas de defesa antioxidante. O estresse oxidativo gerado é leve, transitório e controlado. A resposta celular induzida é a ativação da via Nrf2/Keap1, com expressão de enzimas antioxidantes (SOD, catalase, GPx, HO-1, NQO1) e enzimas do sistema da glutationa. O cérebro, ao receber sangue ozonizado, não recebe ozônio diretamente — recebe um sinal hormético que treina o sistema antioxidante endógeno.

A analogia didática mais útil é a do exercício físico. O exercício moderado induz, no momento agudo, um aumento de espécies reativas de oxigênio e citocinas inflamatórias — paradoxalmente, esse mesmo sinal "negativo" é o que recruta, na fase de recuperação, a expressão de defesas antioxidantes e mitocondriais que tornam o organismo mais resistente. Sedentarismo e excesso de exercício são ambos deletérios; a faixa intermediária é benéfica. O ozônio médico opera pela mesma lógica: subterapêutico abaixo de uma faixa, terapêutico dentro dela, tóxico acima.

A delimitação dessa faixa terapêutica é, portanto, central na prática clínica. As diretrizes da ISCO3 e da WFOT situam a janela útil entre 10 e 80 μg/mL para administração sistêmica, com a recomendação prática de iniciar em torno de 20 μg/mL e titular gradualmente até 40-50 μg/mL em ciclos clínicos. Os limites superiores não são arbitrários: dados experimentais de Frosini e colaboradores, citados por Zhang X et al. (2025). Med Gas Res, 15(1):44-57. PMID: 39436168, mostraram em fatias cerebrais de rato submetidas a privação de oxigênio e glicose que concentrações de 80-120 μg/mL reverteram a lesão isquêmica, ao passo que 160 μg/mL agravaram a lesão. O efeito é dose-dependente e a janela é estreita. Acima dela, a capacidade de tamponamento antioxidante do plasma é excedida; surgem hemólise, peroxidação lipídica descontrolada e desnaturação proteica. Abaixo dela, não há sinal hormético suficiente para deflagrar a resposta adaptativa. A janela terapêutica não é uma sugestão — é uma condição operacional inegociável da ozonioterapia médica.

1.3 ISCO3, WFOT e a institucionalização da prática

A consolidação da ozonioterapia como prática médica baseada em padrões — e não como técnica de fronteira artesanal — passou pela criação de organismos internacionais responsáveis pela padronização de procedimentos, treinamento e diretrizes. Os dois principais são a ISCO3 (International Scientific Committee of Ozone Therapy) e a WFOT (World Federation of Ozone Therapy). A ISCO3 publicou a Declaração de Madrid sobre Ozonioterapia, atualmente em sua 3ª edição (2020), que reúne SOPs (procedimentos operacionais padronizados) detalhados por via de administração — auto-hemoterapia maior, auto-hemoterapia menor, insuflação retal, insuflação vaginal, aplicações tópicas, intradiscais, periarticulares e outras. A WFOT, por sua vez, mantém o Review on Evidence Based Ozone Therapy, documento de revisão periódica das evidências por indicação clínica.

A regulamentação varia entre países. Itália, Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba, China e Rússia reconhecem e regulamentam a ozonioterapia como prática médica, com critérios definidos para formação, registro de equipamentos e indicações. Os Estados Unidos, em sentido oposto, mantêm a posição da FDA que considera o ozônio um gás tóxico sem uso médico aprovado, o que efetivamente proíbe a prática em território americano. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, pela Resolução 2.499 de 2022, reconheceu a ozonioterapia como ato médico, definindo condicionantes para sua prática, exigindo formação específica e restringindo o uso a indicações com respaldo científico documentado.

Do ponto de vista operacional, três pontos resumem o que distingue a prática institucionalizada da prática improvisada. Primeiro, o gerador. O equipamento deve ser certificado, com calibração regular e capacidade de gerar concentrações estáveis dentro da janela terapêutica; geradores artesanais ou não calibrados são incompatíveis com a prática responsável. Segundo, o gás de origem. O ozônio médico deve ser gerado exclusivamente a partir de oxigênio medicinal — nunca ar atmosférico — porque a presença de nitrogênio gera óxidos de nitrogênio (NOx) durante a descarga elétrica, com efeitos tóxicos pulmonares e sistêmicos. Terceiro, os materiais de contato. O ozônio reage com a maioria dos plásticos comuns; recipientes, seringas e cateteres devem ser de materiais resistentes ao ozônio (tipicamente vidro borossilicato ou plásticos específicos como o polipropileno O₃-resistente), e o sistema de coleta e reinfusão deve ser fechado e estéril. Quando essas condições são respeitadas, a ozonioterapia opera dentro de parâmetros reprodutíveis. Quando não são, a discussão sobre eficácia perde sentido — porque o que está sendo administrado deixa de ser ozônio médico no sentido técnico do termo.


CAPÍTULO 2: Por Que o Cérebro Falha — Fisiopatologia Multifatorial da Neurodegeneração

2.1 Os múltiplos buracos no telhado: o paradigma multifatorial

A formulação mais didática do paradigma multifatorial da neurodegeneração foi proposta por Dale Bredesen no contexto do protocolo ReCODE. A analogia é a de um telhado com 36 buracos por onde a água entra: tapar um único buraco — por mais bem-feita que seja a vedação — não resolve a inundação. A casa continua sendo invadida pelos demais. A medicina convencional, ao longo das últimas três décadas, investiu maciçamente em encontrar e tapar "o buraco" — a hipótese amiloide do Alzheimer é o exemplo paradigmático — e obteve resultados clinicamente decepcionantes. A razão estrutural disso, segundo o paradigma multifatorial, é simples: a Doença de Alzheimer e as demais neurodegenerações não são causadas por um único mecanismo, mas pela interação de várias cascatas patológicas que se reforçam mutuamente em ciclos viciosos.

Os pilares fisiopatológicos centrais reconhecidos hoje incluem ao menos seis processos interligados. O primeiro é o estresse oxidativo e a disfunção mitocondrial. O cérebro é particularmente vulnerável: consome aproximadamente 20% do oxigênio do corpo em repouso, é rico em lipídeos poli-insaturados altamente oxidáveis e contém ferro em concentrações suficientes para catalisar reações de Fenton. Quando a produção de espécies reativas de oxigênio excede a capacidade antioxidante endógena, há dano direto a proteínas, lipídeos e DNA, com comprometimento do funcionamento da cadeia respiratória mitocondrial, queda na produção de ATP e ativação de programas de morte celular regulada.

O segundo é a neuroinflamação crônica. A micróglia — célula imune residente do sistema nervoso central — assume um fenótipo persistentemente ativado em torno de placas amiloides, agregados de tau e lesões vasculares. A ativação contínua do fator de transcrição NF-kB e do inflamassoma NLRP3 perpetua a produção de IL-1β, IL-6, TNF-α e outras citocinas, criando um ambiente bioquímico tóxico para os neurônios vizinhos. Essa neuroinflamação não é um epifenômeno: estudos genéticos identificaram polimorfismos em genes imunes (TREM2, CD33, ApoE) como fatores de risco causais para Alzheimer.

O terceiro é a hipoperfusão cerebral. Estudos de fMRI e PET mostram que reduções de fluxo sanguíneo cerebral em territórios específicos — particularmente no cíngulo posterior, precuneus e córtex parietal — precedem em anos o aparecimento de sintomas cognitivos clínicos. A hipoperfusão crônica produz hipóxia tecidual sutil, agrava o estresse oxidativo e compromete o transporte de glicose e a remoção de metabólitos.

O quarto é a falha de autofagia. A autofagia — sistema de degradação lisossomal de proteínas e organelas defeituosas — é a principal via pela qual os neurônios eliminam agregados de Aβ, tau hiperfosforilada e α-sinucleína. No envelhecimento e nas neurodegenerações, esse sistema se torna progressivamente ineficiente, levando ao acúmulo de proteínas patológicas e ao colapso da homeostase proteica neuronal.

O quinto é o déficit neurotrófico. O BDNF (brain-derived neurotrophic factor) é essencial para plasticidade sináptica, sobrevivência neuronal, aprendizado e memória. Seus níveis caem com o envelhecimento, com o sedentarismo, com a depressão e, marcadamente, na Doença de Alzheimer. A queda crônica de BDNF reduz a capacidade de regeneração sináptica e de adaptação a estressores.

O sexto é a disrupção da barreira hematoencefálica. A BHE separa o sistema nervoso central do compartimento sistêmico, controlando rigorosamente o que entra e o que sai. Nas neurodegenerações, ela se torna permeável a moléculas e células que normalmente seriam excluídas, permitindo infiltração de células imunes periféricas, deposição de proteínas séricas no parênquima cerebral e amplificação da neuroinflamação.

A característica que define o paradigma multifatorial não é apenas a coexistência desses processos, mas sua interconexão em ciclos viciosos. O estresse oxidativo ativa NF-kB, que perpetua a neuroinflamação, que recruta mais micróglia, que aumenta o estresse oxidativo. A hipoperfusão agrava a hipóxia, que disfunciona a mitocôndria, que aumenta o estresse oxidativo. A falha de autofagia permite acúmulo de Aβ, que ativa a micróglia, que produz citocinas, que comprometem ainda mais a autofagia. Esses circuitos de retroalimentação positiva — uma vez iniciados — tornam o sistema cada vez mais difícil de desbloquear pela atuação em um único nó. Daí a frustração reiterada das monoterapias de alvo único.

2.2 O fracasso clínico do paradigma mono-alvo

A análise crítica das classes terapêuticas atualmente disponíveis ilustra com precisão esse fracasso. Os inibidores da colinesterase — donepezila, rivastigmina e galantamina — atuam aumentando a disponibilidade de acetilcolina na fenda sináptica, sob a hipótese colinérgica formulada nos anos 1970. O benefício clínico é real, mas modesto: ganhos de 1 a 3 pontos no ADAS-cog em ensaios de 6 meses, sem modificação do curso da doença a médio prazo, e com perfil de efeitos adversos gastrointestinais frequentes (náusea, vômito, diarreia), bradicardia e insônia. Após 12 a 18 meses, o paciente típico retorna à trajetória de declínio que teria sem o medicamento. A memantina — antagonista não competitivo do receptor NMDA — atua regulando a excitotoxicidade glutamatérgica em estágios moderado-grave da doença, com benefício adicional pequeno e perfil de tolerabilidade aceitável, mas, novamente, sem modificação do curso.

Os anticorpos anti-amiloide — lecanemab e donanemab — representam a tentativa mais recente e ambiciosa de atacar a patologia central da Doença de Alzheimer. Ambos demonstraram, em ensaios pivotais, redução estatisticamente significativa da carga amiloide medida por PET e desaceleração do declínio cognitivo. A leitura clínica desses dados, entretanto, exige sobriedade. O lecanemab reduziu o declínio no CDR-SB em 27% ao longo de 18 meses, o que corresponde a uma diferença absoluta de aproximadamente 0,5 ponto em uma escala que varia de 0 a 18. Tradução prática: a diferença entre tratado e placebo é detectável estatisticamente, mas dificilmente perceptível para a família ou para o próprio paciente em sua rotina. O preço dessa diferença marginal inclui ARIA-E (edema cerebral) em 12,6% dos pacientes tratados, ARIA-H (micro-hemorragias) em 17,3%, necessidade de monitoramento intensivo com ressonância magnética seriada e um custo de US$ 26 mil por ano de tratamento — sem contar os custos da infraestrutura de infusão e monitoramento.

A pergunta inevitável é por que, depois de décadas de investimento concentrado, o ganho clínico é tão marginal. A resposta, do ponto de vista do paradigma multifatorial, é que atacar um único alvo — a placa amiloide — não basta quando a doença é uma rede de cascatas conectadas. Mesmo que a placa seja removida, a neuroinflamação crônica continua, a disfunção mitocondrial continua, a hipoperfusão continua, o déficit neurotrófico continua. O paciente segue declinando porque os demais circuitos viciosos seguem rodando. A justificativa conceitual para buscar intervenções upstream multimodais — que atuem simultaneamente em vários pontos da rede patológica — vem precisamente desse impasse. Não se trata de abandonar os tratamentos disponíveis, mas de reconhecer seus limites e de procurar abordagens complementares que ataquem o problema na sua arquitetura multifatorial.

2.3 O cérebro como alvo terapêutico desafiador

Acima de tudo, o cérebro é um órgão particularmente difícil de tratar. Há ao menos quatro particularidades anatomofisiológicas que tornam o desafio farmacológico maior do que em qualquer outro sistema. A primeira é a barreira hematoencefálica. Ela restringe drasticamente a entrada de moléculas hidrofílicas, de alto peso molecular ou polares — características de muitos fármacos potencialmente úteis. Mesmo moléculas que cruzam a BHE com eficiência podem ser bombeadas de volta por transportadores ativos (P-glicoproteína, BCRP), reduzindo a biodisponibilidade efetiva no tecido. Os anticorpos terapêuticos atravessam a BHE apenas em proporções ínfimas — algo entre 0,1 e 0,5% da dose plasmática chega ao parênquima cerebral —, o que explica em parte a necessidade de doses repetidas elevadas e os custos altos das terapias com biológicos.

A segunda particularidade é a prevalência de hipoxia tecidual sutil. A perfusão cerebral alterada precede o declínio cognitivo em pacientes com CCL e Alzheimer, conforme demonstrado em estudos de fMRI e PET. Em territórios hipoperfundidos, a entrega de oxigênio e de substratos energéticos cai abaixo do ideal, comprometendo o funcionamento neuronal antes mesmo da morte celular. Qualquer intervenção que melhore a microcirculação cerebral e a entrega de oxigênio aos tecidos hipóxicos atua, portanto, sobre um substrato fisiopatológico documentado.

A terceira é a capacidade limitada de regeneração. Diferentemente da maioria dos tecidos, o sistema nervoso central tem capacidade neurogênica restrita a áreas específicas — principalmente o giro denteado do hipocampo e a zona subventricular —, e essa neurogênese declina com o envelhecimento. A perda neuronal, em larga medida, é definitiva. Intervenções terapêuticas precisam, então, atuar não tanto na substituição quanto na preservação dos neurônios vulneráveis ainda viáveis. Intervir mais cedo, antes da morte celular estabelecida, é um imperativo estratégico.

A quarta particularidade é a vulnerabilidade ao estresse oxidativo. Como mencionado, o cérebro combina alto metabolismo oxidativo, alta concentração de ferro, alta proporção de lipídeos poli-insaturados e capacidade antioxidante endógena relativamente modesta em comparação com o fígado, por exemplo. Essa combinação o torna o órgão biologicamente mais sensível ao estresse oxidativo crônico. Qualquer intervenção que reforce as defesas antioxidantes endógenas — em vez de fornecer antioxidantes exógenos que não atravessam a BHE ou que rapidamente saturam — atua sobre uma vulnerabilidade estrutural do órgão.

A confluência dessas quatro particularidades — restrição de acesso pela BHE, hipoperfusão prevalente, capacidade regenerativa limitada e vulnerabilidade oxidativa — explica por que terapias sistêmicas que melhoram a perfusão, preservam a integridade da BHE e ativam defesas endógenas antioxidantes têm, conceitualmente, potencial superior ao das estratégias que tentam empurrar fármacos exógenos contra esses obstáculos. É exatamente nessa interseção que se inscreve a tese central deste livro: o ozônio médico, administrado por via sistêmica em doses controladas, atua simultaneamente em vários desses pontos. Ativa a via Nrf2 com reforço das defesas antioxidantes endógenas, suprime a neuroinflamação crônica via inibição de NF-kB e do inflamassoma NLRP3, melhora a oxigenação tecidual via aumento de 2,3-DPG e liberação de vasodilatadores locais, reativa a autofagia via eixo p62-Keap1-Nrf2 e normaliza o BDNF plasmático em contextos clínicos selecionados. Os Capítulos 3 a 5 detalham cada um desses mecanismos com a evidência molecular disponível; os Capítulos 6 e 7 percorrem as evidências pré-clínicas em modelos animais e os ensaios clínicos em humanos publicados até 2026; o Capítulo 8 traduz tudo isso em protocolos operacionais, perfis de segurança e contraindicações.


CAPÍTULO 3: Mecanismo Molecular I — A Via Nrf2/Keap1 como Centro Regulador

3.1 Anatomia molecular da via Nrf2/Keap1

Para entender por que o ozônio médico em baixa dose se comporta como um neuroprotetor — e não como o agente tóxico que costumamos associar ao ozônio atmosférico — é preciso compreender com algum detalhe a via molecular que sustenta praticamente todos os efeitos benéficos descritos na literatura: o eixo Nrf2/Keap1. Esta é a porta de entrada do mecanismo, e tudo o que vem depois (modulação da neuroinflamação, restauração da autofagia, neurotrofismo, oxigenação tecidual) depende, direta ou indiretamente, dela.

O Nrf2 (Nuclear factor erythroid 2-related factor 2) é um fator de transcrição que funciona como o regulador-mestre da resposta antioxidante celular. Em condições basais, o Nrf2 não está livre no citoplasma para fazer seu trabalho. Ele está sequestrado por uma proteína chamada Keap1 (Kelch-like ECH-associated protein 1), que se comporta como uma âncora citoplasmática e, ao mesmo tempo, como um adaptador para o complexo Cullin 3 (Cul3) — uma E3 ubiquitina ligase que marca o Nrf2 para degradação contínua pelo proteassomo. Em outras palavras, em uma célula em repouso, o Nrf2 é produzido, é capturado pela Keap1 e é degradado, repetidamente, num ciclo de turnover muito rápido. Sua meia-vida basal é de cerca de 20 minutos. O sistema está, portanto, "armado, mas freado".

O freio é, ele próprio, um sensor químico. A Keap1 contém um número incomum de resíduos de cisteína — cerca de 27 — e três deles ocupam um papel especial: Cys151, Cys273 e Cys288. Essas cisteínas funcionam como interruptores redox. Quando algum agente eletrofílico ou pró-oxidante de baixa intensidade modifica covalentemente essas cisteínas — por exemplo, formando aductos com o grupo tiol —, a Keap1 muda de conformação e perde a capacidade de entregar o Nrf2 ao proteassomo. O resultado é que o Nrf2 recém-sintetizado deixa de ser degradado, acumula-se no citoplasma e transloca para o núcleo.

No núcleo, o Nrf2 forma um heterodímero com proteínas da família small Maf (sMaf) e se liga a uma sequência específica do DNA chamada ARE (Antioxidant Response Element). A presença do Nrf2 ligado ao ARE recruta a maquinaria de transcrição e ativa um programa coordenado de dezenas de genes citoprotetores. Entre os mais relevantes para a neuroproteção estão:

Esse programa transcricional não é apenas uma resposta de emergência. Ele é uma reprogramação metabólica: a célula passa a operar com maior capacidade antioxidante, melhor tamponamento redox, e maior resistência a estresse subsequente. Quem estuda hormese reconhece aqui o substrato molecular do conceito: uma exposição leve e controlada a um estressor oxidativo deixa a célula mais bem preparada para enfrentar estresses futuros, inclusive aqueles que, sem esse pré-condicionamento, seriam letais.

3.2 Como o ozônio ativa o Nrf2 — H₂O₂ e 4-HNE como mensageiros

Aqui está um dos pontos mais mal compreendidos do mecanismo do ozônio médico: o ozônio em si não chega ao cérebro. Sua meia-vida em tecidos biológicos é da ordem de menos de um minuto, e ao entrar em contato com o sangue ele reage em milissegundos com biomoléculas plasmáticas — ácidos graxos poli-insaturados, antioxidantes hidrossolúveis, proteínas. O que ativa o Nrf2 não é o ozônio diretamente, são os produtos dessas reações: mensageiros secundários gerados em quantidades cuidadosamente limitadas.

Os dois mensageiros mais relevantes são o peróxido de hidrogênio (H₂O₂) em concentrações muito baixas e os produtos de oxidação lipídica (LOPs, lipid oxidation products), principalmente o 4-hidroxinonenal (4-HNE). O H₂O₂ é uma espécie reativa bem conhecida, mas em concentrações nanomolares a micromolares funciona como uma molécula de sinalização — não como um agente destrutivo. Ele oxida tióis específicos de proteínas reguladoras, e a Keap1 está entre seus alvos preferenciais por causa da reatividade incomum de seus resíduos de cisteína. O 4-HNE, por sua vez, é um aldeído eletrofílico derivado da peroxidação de ácidos graxos ômega-6 (especialmente ácido araquidônico e ácido linoleico) e forma aductos de Michael com as cisteínas Cys151 e Cys273 da Keap1.

Em outras palavras, o ozônio, ao entrar em contato com o sangue, gera uma onda transitória e finamente dosada de H₂O₂ e 4-HNE. Essa onda atinge a Keap1, oxida as cisteínas sensoras, libera o Nrf2, e dispara toda a cascata transcricional descrita acima. O efeito sistêmico é uma elevação coordenada das defesas antioxidantes endógenas, que se propaga aos tecidos por meio da circulação e do tráfego intercelular de mensageiros.

Esse modelo de sinalização redox tem duas implicações práticas importantes. A primeira é que a janela de dose importa muitíssimo. Se a quantidade de ozônio for muito baixa, os mensageiros secundários ficam abaixo do limiar de modificação da Keap1 e o Nrf2 não é ativado — efeito subterapêutico. Se a quantidade for muito alta, o sistema antioxidante do plasma é sobrepujado, os mensageiros tornam-se agentes citotóxicos diretos, e o que era sinalização passa a ser dano. Por isso a janela terapêutica recomendada pela ISCO3 e pela WFOT — 10 a 80 microgramas por mililitro, com início recomendado em torno de 20 e titulação até 40 a 50 — não é um capricho. Está ancorada na cinética da reação do ozônio com biomoléculas plasmáticas e no limite de tamponamento antioxidante do sangue humano.

A segunda implicação é que o ozônio médico não precisa atravessar a barreira hematoencefálica para proteger o cérebro. Os mensageiros redox e as enzimas antioxidantes ativadas pela via Nrf2 atuam tanto no compartimento periférico quanto no SNC, e o aumento sistêmico do tônus antioxidante reduz a carga oxidativa que chega ao tecido cerebral. Soma-se a isso o fato de que o ozônio em baixa dose, como veremos no Capítulo 4, preserva a integridade da própria BHE, o que é precondição indispensável para qualquer proteção do tecido neural envelhecido.

3.3 Evidência meta-analítica — Scassellati 2020 como pedra angular

Toda essa descrição mecanística, se ficasse no nível pré-clínico, seria apenas mais uma teoria bem desenhada. O que confere à via Nrf2/Keap1 o status de mecanismo central da ozonioterapia médica é a robustez quantitativa dos dados acumulados. A síntese mais sólida que temos é a meta-análise de Scassellati e colaboradores, publicada em 2020 no Ageing Research Reviews.

Scassellati C, Galoforo AC, Bonvicini C, Esposito C, Ricevuti G (2020). Ozone: a natural bioactive molecule with antioxidant property as potential new strategy in aging and in neurodegenerative disorders. Ageing Research Reviews, 63:101138. PMID: 32810649. DOI: 10.1016/j.arr.2020.101138.

Esta meta-análise compilou mais de 65 achados experimentais e clínicos relativos à modulação do sistema antioxidante e do sistema vitagênico pelo ozônio médico. Os resultados quantitativos foram inequívocos:

O significado desses números merece comentário. Em meta-análises de mecanismos farmacológicos, é incomum encontrar p-valores tão pequenos com tamanhos de efeito tão consistentes entre estudos heterogêneos — desenhos in vitro, modelos animais variados, contextos clínicos diversos. A robustez do achado sugere que estamos diante de uma assinatura mecanística verdadeira, não de um artefato de publicação ou de um efeito específico de um modelo.

Outro ponto que reforça a solidez do achado: a meta-análise documentou também a regulação NEGATIVA das vias pró-inflamatórias na mesma direção esperada pela teoria. O eixo NF-κB/NLRP3/TLR4 mostrou ORs de -5,25 para mRNA e -4,85 para proteína. São tamanhos de efeito massivos — algo raro em farmacologia. Voltaremos a esses números no Capítulo 4. Por enquanto, basta reter que o ozônio em baixa dose não só liga o programa antioxidante via Nrf2 como desliga, em magnitude correspondente, o programa pró-inflamatório. Essa simetria é coerente com o que sabemos do crosstalk entre as duas vias e dificilmente seria reproduzida por puro acaso.

A pedra angular conceitual da compreensão do Nrf2 na ozonioterapia é o trabalho de Galié e colaboradores, frequentemente citado em paralelo com a meta-análise: Galié M, Covi V, Tabaracci G, Malatesta M (2019). The Role of Nrf2 in the Antioxidant Cellular Response to Medical Ozone Exposure. International Journal of Molecular Sciences, 20(16):4009. DOI: 10.3390/ijms20164009. Esse artigo, com mais de 120 citações na literatura subsequente, organiza o mapa mecanístico que descrevemos acima — desde a geração de mensageiros secundários até a translocação nuclear do Nrf2 e a ativação dos elementos ARE — e estabelece o vocabulário comum hoje utilizado pela comunidade científica.

3.4 Confirmação translacional em humanos — Cheng 2025

Até aqui, falamos de meta-análise sobre estudos majoritariamente experimentais. A pergunta legítima é: esse mecanismo molecular se observa, in vivo, em seres humanos tratados? A resposta veio em 2025 com o ECR de Cheng e colaboradores.

Cheng H, Lu R, Du J, Zhao X, Zhuang Z (2025). Ozone autohemotherapy for acute ischemic stroke. Frontiers in Medicine, 12:1595568. PMID: 40786087. DOI: 10.3389/fmed.2025.1595568.

Este foi um ensaio clínico randomizado de três braços (controle, placebo com oxigênio puro, ozonioterapia por auto-hemoterapia maior) com 62 pacientes com AVC isquêmico agudo. O protocolo de tratamento — 100 mL de sangue autólogo misturado com 100 mL de mistura O₂-O₃ a 45 microgramas por mL, reinfundido IV, uma vez ao dia por 5 dias consecutivos — gerou, no grupo ozônio, elevação significativa dos níveis séricos de Nrf2 e de HIF-1 em comparação com os grupos controle e placebo (p<0,05 para ambos). Houve, em paralelo, aumento das enzimas antioxidantes SOD e GSH-Px e queda do MDA (malondialdeído, marcador clássico de peroxidação lipídica).

Esse dado tem peso desproporcional ao tamanho amostral pequeno por uma razão simples: ele fecha o ciclo translacional. Não é mais uma inferência baseada em culturas celulares ou em homogenatos teciduais de ratos. É a confirmação, in vivo, em sangue humano de pacientes tratados com protocolo padronizado, de que o ozônio médico ativa exatamente a via molecular que a teoria predisse. Quando combinada com a meta-análise de Scassellati 2020, a evidência mecanística da ativação do Nrf2 pela ozonioterapia médica deixa de ser uma hipótese e passa a ser um achado consolidado da literatura.


CAPÍTULO 4: Mecanismo Molecular II — Modulação da Neuroinflamação

4.1 NF-κB e o inflamassoma NLRP3 — os motores da neuroinflamação crônica

Se a via Nrf2/Keap1 é o "freio antioxidante" da célula, o eixo NF-κB/NLRP3 é o "acelerador inflamatório". E nas doenças neurodegenerativas — Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica, demência vascular — esse acelerador está, com poucas exceções, preso no chão. A micróglia ativada cronicamente é o coração do problema. Ela libera citocinas pró-inflamatórias de forma contínua, atrai células imunes periféricas, perpetua um microambiente tóxico para os neurônios, e funciona como um loop de retroalimentação positiva: quanto mais inflamação, mais ativação microglial; quanto mais ativação microglial, mais inflamação.

O NF-κB (nuclear factor kappa-light-chain-enhancer of activated B cells) é um fator de transcrição que, quando ativado, dispara a expressão de dezenas de genes pró-inflamatórios — TNF-α, IL-6, IL-1β, COX-2, iNOS, moléculas de adesão endotelial. Em condições normais, o NF-κB é mantido inativo no citoplasma pela proteína IκB. Estímulos como DAMPs (damage-associated molecular patterns, incluindo β-amiloide oligomérico), PAMPs (pathogen-associated molecular patterns), ROS, TNF-α e LPS ativam o complexo IKK, que fosforila IκB e a marca para degradação. O NF-κB livre transloca para o núcleo e ativa o programa pró-inflamatório.

O inflamassoma NLRP3 é um complexo multiproteico que, quando montado em resposta a um segundo estímulo (sinal 2 — ROS mitocondrial, K+ efflux, agregados proteicos), ativa a caspase-1, que por sua vez cliva a pró-IL-1β e a pró-IL-18 em suas formas maduras e biologicamente ativas. O β-amiloide oligomérico, fibrilas de α-sinucleína e tau hiperfosforilada são todos sinais 2 reconhecidos pelo NLRP3 — daí a centralidade desse inflamassoma na patogenia das proteinopatias neurodegenerativas.

O receptor TLR4 (Toll-like receptor 4), presente em micróglia e em macrófagos periféricos, reconhece tanto LPS bacteriano quanto DAMPs endógenos, incluindo o próprio β-amiloide. Sua ativação dispara cascatas via MyD88/TIR-domain que convergem para ativação de NF-κB e priming do NLRP3 — o "sinal 1" do inflamassoma. O eixo TLR4 → NF-κB → NLRP3 é, portanto, um dos motores principais da neuroinflamação crônica observada no Alzheimer e no Parkinson.

As citocinas resultantes — IL-1β, IL-6 e TNF-α em primeiro lugar — estão consistentemente elevadas no líquor e no soro de pacientes com Alzheimer, e correlacionam-se com a velocidade de declínio cognitivo. Não são apenas marcadores. São efetoras: induzem morte neuronal, aumentam a permeabilidade da BHE, promovem hiperfosforilação de tau e aceleram a agregação amiloide. Quem consegue desligar esse eixo, em teoria, está intervindo na engrenagem central da doença.

4.2 Como o ozônio em baixa dose suprime essas vias

Aqui é onde o paradoxo do ozônio se mostra em sua forma mais clara. O ozônio em alta dose, em exposição crônica por inalação, ativa o NF-κB e amplifica a neuroinflamação — é o efeito documentado nos modelos de poluição atmosférica e em estudos como o de Valdés-Fuentes 2024, em que ratos expostos a 0,25 ppm de ozônio inalado por períodos prolongados desenvolveram acúmulo de α-sinucleína, elevação de NF-κB e de IL-17, replicando aspectos da patologia parkinsoniana. O ozônio em baixa dose, administrado por via sistêmica, faz exatamente o oposto: inibe o NF-κB e desliga o inflamassoma NLRP3. A mesma molécula, doses opostas, efeitos opostos. A janela terapêutica entre 10 e 80 microgramas por mL é o que separa um polo do outro.

O mecanismo pelo qual o ozônio em baixa dose suprime a via inflamatória passa por três pontos articulados:

Primeiro, o crosstalk Nrf2-NF-κB. Existe uma antagonismo bem documentado entre essas duas vias: a ativação do Nrf2 inibe a translocação nuclear do NF-κB, reduz a expressão de IκB-degradante e diminui a produção de ROS — que são, eles próprios, sinais ativadores de NF-κB. Quando o ozônio ativa o Nrf2, ele indiretamente "desliga" o NF-κB por essa via de inibição cruzada.

Segundo, a inativação do sinal TLR4. O ozônio em baixa dose interfere no signaling do domínio TIR, reduzindo a montagem do complexo MyD88 e a propagação do sinal a jusante. Estudos in vitro mostram que pré-tratamento com ozônio reduz a resposta de macrófagos a LPS — um marcador clássico da capacidade de modular o TLR4.

Terceiro, a inibição do assembly do NLRP3. A ativação do NLRP3 depende fortemente de ROS mitocondrial como sinal 2. Como o ozônio em baixa dose ativa o Nrf2 e, por meio dele, melhora a função e a biogênese mitocondrial, o ROS mitocondrial cai, e o NLRP3 perde seu gatilho. O resultado é menos clivagem de IL-1β em sua forma madura, menos piroptose, menos amplificação inflamatória.

A magnitude desse efeito é o aspecto mais impressionante. A meta-análise de Scassellati 2020 quantificou a regulação negativa do eixo NF-κB/NLRP3/TLR4 e encontrou:

Esses são tamanhos de efeito massivos, raros em farmacologia. Para comparação: os efeitos anti-inflamatórios de inibidores específicos do NLRP3, em desenvolvimento clínico atual, costumam apresentar ORs entre -1,2 e -2,0 em sistemas comparáveis. O ozônio médico, atuando upstream do NLRP3, multimodal, atinge magnitudes 2 a 4 vezes maiores na meta-análise — provavelmente porque não está bloqueando apenas um ponto da cascata, mas atenuando-a em múltiplos níveis simultaneamente.

A inversão de sentido do paradoxo é importante de fixar para a clínica: alta dose / inalação crônica → NF-κB para cima, neuroinflamação para cima, neurodegeneração progressiva; baixa dose / sistêmica controlada → NF-κB para baixo, neuroinflamação para baixo, neuroproteção. É a mesma molécula. O que muda é a via, a dose e a duração.

4.3 Confirmação experimental recente — Demir 2026

A evidência experimental mais sofisticada da supressão da neuroinflamação pelo ozônio médico veio com o estudo de Demir e colaboradores, publicado em 2026 no Neurochemical Research.

Demir H, Demirtas C, Yildirim H, et al. (2026). Ozone Treatment Attenuates Neuroinflammation in Post-Traumatic Epilepsy. Neurochemical Research. PMID: 41718951.

O desenho do estudo foi um modelo de epilepsia pós-traumática em ratos — um contexto particularmente exigente, porque combina lesão cerebral aguda, neuroinflamação subaguda e disfunção cognitiva crônica em um único modelo. Os animais foram alocados em 3 grupos: controle (sham), epilepsia pós-traumática sem tratamento, e epilepsia pós-traumática tratada com ozônio intraperitoneal a 0,7 mg/kg por 3 dias consecutivos.

Os resultados, no grupo tratado com ozônio, foram convergentes e contundentes:

Importa notar que o estudo cobre, num único experimento, a tríade que define a relevância clínica de um candidato a neuroprotetor: modulação dos mediadores moleculares (citocinas, ROS), proteção contra mecanismos celulares de morte (SUR1, TRPM4) e melhora funcional comportamental e cognitiva. Os três níveis se alinham, e a magnitude dos efeitos é consistente com o que a meta-análise de Scassellati havia projetado a partir de dados mais antigos. Em 2026, o quadro experimental da supressão da neuroinflamação pela ozonioterapia médica está, portanto, consolidado.

4.4 Barreira hematoencefálica — proteção pela ozonioterapia médica

Um aspecto frequentemente subestimado da neuroinflamação crônica é seu impacto sobre a barreira hematoencefálica. A BHE é uma estrutura altamente especializada formada por células endoteliais com junções íntimas (tight junctions), astrócitos, pericitos e a lâmina basal. Sua função é controlar com precisão o que entra e o que sai do compartimento cerebral. Em doenças neurodegenerativas, a BHE perde essa seletividade: as junções íntimas se desorganizam, células imunes periféricas infiltram o parênquima, proteínas plasmáticas (incluindo fibrinogênio) extravasam, e o microambiente cerebral é progressivamente contaminado por sinais pró-inflamatórios sistêmicos.

O ozônio médico em baixas doses protege a BHE por vários mecanismos articulados. Reduz os marcadores inflamatórios crônicos sistêmicos, diminuindo o estímulo externo sobre o endotélio cerebral. Diminui ROS no plasma, reduzindo o estresse oxidativo direto sobre as células endoteliais. Ativa o Nrf2 nas próprias células endoteliais, induzindo HO-1, NQO1 e enzimas de fase II que fortalecem a defesa local. E reduz a infiltração de leucócitos periféricos, ao baixar a expressão de moléculas de adesão (ICAM-1, VCAM-1, E-selectina) que normalmente recrutam células imunes em estados pró-inflamatórios.

O contraste com o ozônio inalado em alta dose é, mais uma vez, instrutivo. A exposição crônica a ozônio atmosférico em concentrações urbanas elevadas desorganiza a BHE — abre as tight junctions, aumenta a permeabilidade ao corante de Evans (marcador clássico de quebra da BHE) e facilita a entrada de fatores pró-inflamatórios sistêmicos no SNC. É exatamente o oposto do que o ozônio sistêmico em baixa dose faz. Esse vértice do paradoxo — a mesma molécula destruindo ou protegendo a BHE conforme a via e a dose — é um dos pontos que mais incomodam quem se aproxima da literatura sem entender a janela terapêutica. Mas é coerente com tudo o que descrevemos: o que protege é a sinalização redox controlada via Nrf2; o que destrói é o estresse oxidativo descontrolado que sobrepuja o tamponamento antioxidante.

A integridade da BHE não é detalhe técnico. É precondição. Em um cérebro envelhecido, com BHE comprometida, qualquer intervenção neuroprotetora encontra um terreno hostil — o tecido cerebral está exposto a fatores inflamatórios sistêmicos, e o tráfego controlado de nutrientes, metabólitos e fármacos está perturbado. Ao restaurar (em parte) essa barreira, o ozônio cria condições para que outros pilares da neuroproteção — autofagia, oxigenação tecidual, neurotrofismo — possam operar.


CAPÍTULO 5: Mecanismo Molecular III — Oxigenação, Autofagia e Neurotrofismo

5.1 Reologia eritrocitária e efeito Bohr — o ozônio como "otimizador de oxigenação"

A hipoperfusão cerebral é um achado precoce e persistente nas demências neurodegenerativas. Estudos com SPECT, PET e ressonância funcional mostram redução do fluxo sanguíneo cerebral em regiões posteriores (parietal, temporal medial) anos antes da manifestação clínica do Alzheimer. No Parkinson, a hipoperfusão acompanha as áreas frontais e os núcleos da base. Em ambos os casos, a redução da entrega de oxigênio ao tecido cerebral é um motor — não apenas um marcador — da neurodegeneração.

O ozônio médico age sobre a oxigenação cerebral por dois mecanismos articulados: melhora da reologia eritrocitária e deslocamento da curva de dissociação da hemoglobina.

Primeiro, a reologia. Os eritrócitos saudáveis precisam se deformar continuamente para atravessar capilares cujo diâmetro é menor que o da própria célula. Com o envelhecimento e em estados de estresse oxidativo crônico, a membrana eritrocitária perde fluidez e os glóbulos vermelhos ficam mais rígidos. O resultado é uma desaceleração da microcirculação, com áreas de hipoperfusão e shunting de fluxo. O ozônio médico, ao expor os eritrócitos brevemente ao estresse oxidativo controlado da auto-hemoterapia, ativa mecanismos de reparo de membrana e melhora a deformabilidade dos glóbulos vermelhos. Eles escoam melhor por capilares estreitos, e a microcirculação tecidual — incluindo a cerebral — fica mais eficiente.

Segundo, o efeito Bohr modulado pelo 2,3-difosfoglicerato (2,3-DPG). O 2,3-DPG é um metabólito eritrocitário que se liga à hemoglobina e diminui sua afinidade pelo O₂. Quanto mais 2,3-DPG no eritrócito, mais para a direita se desloca a curva de dissociação O₂-hemoglobina — ou seja, em uma dada pO₂ tecidual, mais oxigênio é liberado para os tecidos. O ozônio médico, ao acelerar transitoriamente a via glicolítica eritrocitária (em particular o desvio de Rapoport-Luebering), aumenta os níveis de 2,3-DPG. O resultado é maior entrega de oxigênio onde mais falta: em tecidos hipóxicos, como o cérebro envelhecido. É um efeito que, para o leigo, pode soar paradoxal — "como pode reduzir a afinidade da hemoglobina pelo O₂ ser bom?" —, mas para quem entende fisiologia respiratória é exatamente o que se quer numa situação de baixa pO₂ tecidual: que a hemoglobina solte o oxigênio com mais facilidade.

A esses dois mecanismos soma-se a liberação local de vasodilatadores — óxido nítrico (NO) e prostaciclina (PGI₂) — que o ozônio promove ao estimular o endotélio. O resultado integrado é uma microcirculação mais fluida, com hemoglobina mais "dadora", em vasos mais dilatados. Para o cérebro envelhecido, com hipoperfusão precoce, essa otimização tem impacto funcional.

A confirmação dessa ação vem da revisão abrangente de Zhang e colaboradores: Zhang X, Wang SJ, Wan SC, Li X, Chen G (2025). Ozone: complicated effects in central nervous system diseases. Medical Gas Research, 15(1):44-57. PMID: 39436168. Esse artigo, que cobre os efeitos duplos do ozônio no SNC, destaca que em concentrações terapêuticas o ozônio melhora a oxigenação tecidual e simultaneamente reduz níveis de peptídeo β-amiloide — uma associação coerente com o conceito de que melhor oxigenação cerebral reduz a sobrecarga metabólica que favorece o acúmulo amiloide.

5.2 Autofagia restaurada — depuração de Aβ, tau e α-sinucleína

A autofagia é o sistema de reciclagem celular: um conjunto de processos pelos quais a célula degrada e recicla seus próprios componentes — proteínas mal dobradas, agregados, organelas senescentes ou danificadas. Há três grandes vertentes: macroautofagia (a forma "clássica", em que material citoplasmático é envolvido por um autofagossomo e fundido ao lisossomo), microautofagia e autofagia mediada por chaperonas. A macroautofagia é a mais relevante para a neuroproteção, porque é o sistema principal de eliminação de agregados proteicos de grande porte.

Na neurodegeneração, a autofagia está consistentemente comprometida. Em Alzheimer, há acúmulo de autofagossomos não fundidos a lisossomos — sinal de bloqueio do fluxo autofágico (autophagy flux). No Parkinson, mutações em genes da macroautofagia (por exemplo, PINK1, Parkin) ou da autofagia mediada por chaperonas (LAMP2A) levam ao acúmulo de α-sinucleína. Na doença de Huntington, a huntingtina mutada interfere com a maquinaria autofágica. Em todas, o resultado funcional é o mesmo: o cérebro não consegue limpar o lixo proteico que produz, e os agregados se acumulam.

O ozônio médico restaura a autofagia por um mecanismo elegante: o eixo p62-Keap1-Nrf2. O p62 (também chamado de SQSTM1) é uma proteína adaptadora multifuncional. Reconhece proteínas ubiquitinadas e as direciona para o autofagossomo, ligando-se simultaneamente à cadeia de poliubiquitina e à proteína LC3 do autofagossomo. Mas o p62 tem outra função: interage diretamente com a Keap1, competindo com o Nrf2 pelo mesmo sítio de ligação. Quando o p62 se acumula (sinal de demanda autofágica elevada), ele sequestra a Keap1, liberando mais Nrf2 para o núcleo. O Nrf2, por sua vez, induz a expressão do próprio p62 — fechando um loop de retroalimentação positiva entre autofagia e defesa antioxidante.

O ozônio entra nesse circuito ativando o Nrf2 e, ao mesmo tempo, modulando os sinalizadores AMPK e mTOR. A AMPK (AMP-activated protein kinase) é o sensor energético da célula: ativa-se em estados de baixo ATP/AMP e dispara a autofagia. O mTOR (mechanistic target of rapamycin) é o oposto: ativa-se em estados de abundância de nutrientes e suprime a autofagia. O ozônio em baixa dose, via Nrf2 e via produção de mensageiros redox, modula essas duas vias em direção pró-autofágica: ativa a AMPK e atenua o tônus mTOR. O resultado líquido é o aumento do fluxo autofágico — mais autofagossomos formados, mais fusão com lisossomos, mais degradação de cargo.

Na prática neuroquímica, isso significa maior depuração de β-amiloide, de tau hiperfosforilada e de α-sinucleína. Os três principais agregados patológicos das neurodegenerações dependem da autofagia (em particular da agrefagia, sub-tipo dedicado a agregados) para serem removidos. Nenhum dos fármacos atualmente aprovados para Alzheimer — donepezila, rivastigmina, galantamina, memantina, lecanemab, donanemab — atua nessa via. Os inibidores de colinesterase agem na fenda sináptica; os anticorpos anti-amiloide promovem clearance imunomediado de fibrilas, sem reativar o sistema autofágico endógeno. O ozônio médico ocupa, portanto, um nicho mecanístico que está completamente desatendido pelo arsenal farmacológico tradicional.

5.3 BDNF e neurotrofismo — a face regenerativa do tratamento

O BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor) é uma neurotrofina da família do NGF (Nerve Growth Factor), expressa abundantemente no cérebro adulto, especialmente no hipocampo, no córtex cerebral e nos núcleos basais. Suas funções incluem suporte à sobrevivência neuronal, promoção da plasticidade sináptica, modulação da neurogênese hipocampal adulta e regulação do humor. Liga-se ao receptor TrkB e, em menor afinidade, ao p75NTR, e ativa cascatas downstream (PI3K/Akt, MAPK/ERK, PLCγ) que sustentam a fisiologia neural.

O BDNF está sistematicamente reduzido em condições associadas a comprometimento cognitivo: Alzheimer (queda em hipocampo e córtex cingulado), depressão maior (queda plasmática e cortical), envelhecimento fisiológico (queda gradual após os 50 anos) e estresse crônico. A relação entre BDNF e cognição não é apenas correlativa: estudos de manipulação experimental mostram que aumentar o BDNF melhora a memória, a plasticidade sináptica e a neurogênese.

O ozônio médico atua sobre o BDNF de forma documentada em humanos. O ECR com 140 pacientes com comprometimento cognitivo pós-COVID, publicado em 2024 no Russian Journal of Physiology (23(1):57-67), mostrou que a adição de ozonioterapia sistêmica ao tratamento farmacológico convencional resultou em:

O significado clínico desses números é importante. O brain fog pós-COVID é um modelo natural de neuroinflamação subaguda com componente neurotrófico deprimido. A normalização do BDNF associada à recuperação clínica completa sugere que o ozônio não está apenas reduzindo o dano (componente antioxidante e anti-inflamatório) — está estimulando a REPARAÇÃO. É a face regenerativa do tratamento, a que falta na maioria dos fármacos atualmente disponíveis.

Esse achado é coerente com dados pré-clínicos. El-Mehi e Faried (2020), no Annals of Anatomy, mostraram que ratos idosos tratados com ozônio (0,7 mg/kg IP, 3 vezes por semana, 8 semanas) apresentaram aumento da neurogênese no córtex frontal — um achado anatomicamente compatível com aumento de neurotrofismo. Ou seja: a sinalização que começa com o ozônio gerando H₂O₂ e 4-HNE no plasma, passa pelo Nrf2, desliga o NF-κB, restaura a autofagia, otimiza a oxigenação cerebral — e culmina em um cérebro com mais BDNF, mais neurogênese, mais plasticidade. Reduz o dano e estimula a recomposição.

5.4 Integração — por que a abordagem multimodal do ozônio é teoricamente superior

Chegamos ao ponto de síntese. Nos três capítulos mecanísticos, descrevemos seis pilares de ação do ozônio médico em baixa dose sobre o SNC:

  1. Ativação da via Nrf2/Keap1 — programa antioxidante endógeno (SOD, catalase, GPx, HO-1, NQO1, sistema GSH).
  2. Supressão do eixo NF-κB/NLRP3/TLR4 — modulação da neuroinflamação crônica.
  3. Restauração da função mitocondrial e biogênese — fonte central de ROS e ATP no neurônio.
  4. Otimização da oxigenação cerebral — reologia eritrocitária, 2,3-DPG, efeito Bohr, vasodilatação.
  5. Reativação da autofagia via eixo p62-Keap1-Nrf2/AMPK/mTOR — depuração de Aβ, tau, α-sinucleína.
  6. Promoção de neurotrofismo via BDNF — plasticidade e neurogênese.

Some-se a esses a proteção da BHE, que é precondição para que os anteriores operem. Sete vértices de ação, articulados, simultâneos, derivados de uma única intervenção.

Compare-se isso com o paradigma farmacológico tradicional. A donepezila atua na fenda colinérgica — eleva acetilcolina, sem tocar em nenhum outro pilar. A memantina antagoniza NMDA. O lecanemab promove clearance imunomediado de placas de β-amiloide — atua em apenas um dos cinco "buracos do telhado" descritos no protocolo ReCODE de Bredesen (especificamente, o componente amiloide do Tipo 1 inflamatório). O donanemab age na mesma lógica, com benefício clínico marginal e risco significativo de ARIA.

Essa diferença não é apenas quantitativa. É conceitual. A neurodegeneração é uma síndrome multifatorial em que estresse oxidativo, neuroinflamação, disfunção mitocondrial, hipoperfusão, falha de autofagia e déficit neurotrófico operam simultaneamente e se reforçam mutuamente. Tentar consertar um nó por vez é a estratégia farmacológica clássica — produz tratamentos específicos para cada manifestação distal. Mas os "motores compartilhados" — Nrf2 inativo, NF-κB hiperativo, mitocôndria comprometida, autofagia bloqueada, BDNF reduzido — são os mesmos em quase todas as condições. Uma intervenção que atue upstream, sobre esses motores compartilhados, é teoricamente superior por desenho.

O ozônio médico é, nesse sentido, uma "intervenção upstream" — atua em hubs regulatórios cuja ativação ou supressão tem efeito cascata sobre muitos genes e processos a jusante. Não é coincidência que ele se encaixe naturalmente em paradigmas multimodais como o ReCODE de Dale Bredesen. Dentro do ReCODE, o ozônio endereça simultaneamente o subtipo inflamatório (Tipo 1, via Nrf2 e supressão de NF-κB), o subtipo tóxico (Tipo 3, via autofagia e detoxificação), o subtipo vascular (Tipo 4, via reologia, 2,3-DPG e perfusão cerebral) e oferece, ainda, suporte neurotrófico via BDNF. Uma única intervenção, com perfil de segurança excepcional (taxa de eventos adversos de 0,0007% segundo a WFOT, conforme veremos no Capítulo 7), atravessando 4 dos pilares multifatoriais que o protocolo identifica.

Não se trata, é claro, de substituir os fármacos disponíveis. Donepezila, memantina e os anti-amiloides têm seus papéis, e a melhora da perfusão e da BHE pelo ozônio pode até potencializar a entrega tecidual desses medicamentos. Trata-se de adicionar uma camada de neuroproteção que atua exatamente onde os fármacos isolados não chegam — nos motores upstream do processo neurodegenerativo. É essa lógica de complementaridade, ancorada em mecanismo molecular sólido e em evidência clínica crescente (Capítulo 6), que justifica o lugar da ozonioterapia no arsenal do médico que cuida do paciente com deficit cognitivo no século XXI.


CAPÍTULO 6: Evidência Pré-Clínica — O Que os Modelos Animais Demonstraram

A discussão dos mecanismos moleculares só ganha relevância clínica quando os achados in vitro e em sistemas reducionistas são reproduzidos em organismos vivos com fisiopatologia análoga à doença humana. Os modelos animais de neurodegeneração — transgênicos, tóxicos, isquêmicos e de envelhecimento — fornecem o teste mais próximo possível dessa translação antes do ensaio clínico. O conjunto disponível sobre ozonioterapia neuroprotetora cobre 6 modelos distintos, com convergência mecanística marcante: estresse oxidativo reduzido, neuroinflamação suprimida e morte neuronal contida. Este capítulo analisa cada um deles e sintetiza o que essa convergência significa.

6.1 Modelo de Alzheimer (APP/PS1) — Lin 2019

Lin SY, Ma J, An JX, et al. (2019). Neuroscience, 418:110-121. PMID: 31349006.

Este é o único estudo publicado em modelo transgênico clássico de Doença de Alzheimer. Os autores utilizaram camundongos APP/PS1 — uma linhagem que expressa formas mutadas de APP (proteína precursora amiloide) e presenilina 1, levando ao acúmulo progressivo de beta-amiloide e formação de placas a partir dos 4-5 meses de idade. O experimento começou aos 5 meses de idade dos animais, exatamente quando a deposição amiloide se inicia. Os camundongos foram alocados em 3 grupos: controle, O₃ a 30 μg/mL e O₃ a 50 μg/mL. O protocolo foi de injeção intraperitoneal diária por 25 dias consecutivos.

Os resultados foram simultaneamente bioquímicos e comportamentais. No córtex pré-frontal e no hipocampo — as 2 regiões mais afetadas pela patologia amiloide na DA humana — houve redução significativa dos níveis de APP e do acúmulo de Aβ. Comportamentalmente, os animais tratados mostraram melhora da memória espacial no Morris Water Maze (paradigma clássico de aprendizado dependente do hipocampo) e da memória de trabalho no Open Field Test.

A relevância deste estudo vai além dos números. Ele estabelece que o ozônio não age apenas reduzindo um marcador genérico de estresse oxidativo: age sobre a patologia central da doença. Reduz a produção e o acúmulo do peptídeo Aβ — o mesmo alvo que lecanemab e donanemab buscam atacar com anticorpos monoclonais a um custo de 26 mil dólares por ano. E a redução da carga amiloide vem acompanhada de melhora cognitiva mensurável, o que sugere relação causal, não apenas associação.

A principal limitação é justamente o fato de ser o único estudo neste modelo. Modelos transgênicos APP/PS1 são caros, requerem colônias controladas e têm tempo experimental longo. A replicação independente é prioridade para a área, e várias propostas estão em fase de submissão.

6.2 Modelo de Parkinson (rotenona) — Kaplan Algin 2023

Kaplan Algin A, Tomruk C, Aslan CG, et al. (2023). Neuroscience Letters, 812:137448. PMID: 37597740.

A Doença de Parkinson é caracterizada pela degeneração progressiva de neurônios dopaminérgicos da substância negra pars compacta e da área tegmental ventral, com acúmulo de α-sinucleína em corpos de Lewy. Kaplan Algin e colaboradores induziram o modelo em ratos Sprague-Dawley com injeção estereotáxica de rotenona — um inseticida que inibe o complexo I mitocondrial e reproduz de forma fidedigna a perda neuronal dopaminérgica.

O desenho contou com 48 animais distribuídos em 4 grupos. O grupo tratado recebeu O₃ intraperitoneal a 2 mg/kg. Os autores avaliaram tanto biomarcadores moleculares quanto preservação celular. No tecido cerebral, houve melhora significativa dos níveis de α-sinucleína, Aβ, tau e tau fosforilada — uma assinatura proteopática combinada que reflete a sobreposição clínica entre DA e DP em pacientes reais. Histologicamente, a preservação de neurônios dopaminérgicos imunorreativos para TH (tirosina hidroxilase, marcador dopaminérgico clássico), nNOS+ e células gliais foi documentada na substância negra pars compacta e na área tegmental ventral.

O significado prático deste achado é direto. O ozônio protegeu os neurônios produtores de dopamina — exatamente a população celular que define a Doença de Parkinson e cuja morte progressiva determina a evolução clínica da doença. Em um campo onde nenhum tratamento aprovado modifica a progressão da DP, esse resultado pré-clínico é um sinal forte.

6.3 Modelo de AVC isquêmico — Zhu 2024

Zhu F, Ding S, Liu Y, Wang X, Wu Z (2024). J Chem Neuroanat, 136:102387. PMID: 38182039.

O modelo de isquemia-reperfusão (I/R) cerebral em ratos reproduz a fisiopatologia do AVC isquêmico humano, incluindo o paradoxo da reperfusão: a restauração do fluxo sanguíneo, embora necessária, gera uma segunda onda de dano oxidativo e morte celular. Zhu e colaboradores investigaram especificamente se o ozônio protegia contra a ferroptose — uma forma regulada de morte celular caracterizada por acúmulo de ferro e peroxidação lipídica descontrolada, recentemente identificada como contribuinte central à lesão neuronal pós-AVC.

Os autores demonstraram proteção neuronal robusta nos animais tratados, e foram além do simples efeito: dissecaram a via molecular responsável. A proteção ocorre pelo eixo NRF2/SLC7A11/GPX4. Em termos simples, o Nrf2 ativado induz a expressão do SLC7A11 (xCT, transportador que regula a captação de cistina para síntese de glutationa) e da GPX4 (glutationa peroxidase 4, enzima que neutraliza peróxidos lipídicos). Sem GPX4 funcional, a peroxidação lipídica avança e a ferroptose acontece.

O dado de causalidade é o ponto mais forte deste estudo. Quando os autores bloquearam farmacologicamente a via Nrf2, a proteção do ozônio desapareceu. Isso é radicalmente diferente de uma correlação: é prova mecanística de que o efeito neuroprotetor depende daquela via específica. Em desenho experimental, é o equivalente a um teste de necessidade — sem Nrf2, sem proteção. Esse tipo de demonstração, raro mesmo em estudos pré-clínicos, eleva a confiança epistemológica do mecanismo proposto.

6.4 Envelhecimento cerebral — El-Mehi 2020

El-Mehi AE, Faried MA (2020). Annals of Anatomy, 227:151428. PMID: 31610254.

O envelhecimento cerebral fisiológico, mesmo na ausência de doença neurodegenerativa franca, é acompanhado de estresse oxidativo crônico, declínio das defesas antioxidantes, neuroinflamação de baixo grau e perda gradual de plasticidade. El-Mehi e Faried trabalharam com ratos albinos idosos, tratados com O₃ a 0,7 mg/kg por via intraperitoneal, 3 vezes por semana durante 8 semanas.

Os achados foram coerentes com o mecanismo Nrf2/Keap1 descrito no capítulo anterior. No córtex frontal — região particularmente vulnerável ao envelhecimento e ao Alzheimer precoce — observou-se redução significativa do malondialdeído (MDA, marcador de peroxidação lipídica) e aumento da glutationa reduzida (GSH), superóxido dismutase (SOD) e catalase (CAT). Em paralelo, houve redução de apoptose e gliose reativa, com aumento de marcadores de neurogênese e plasticidade colinérgica.

O ponto conceitual aqui é o mais importante para a clínica: o cérebro envelhecido responde à intervenção. A neuroplasticidade não está perdida no idoso. O sistema antioxidante, mesmo após décadas de operação, pode ser re-treinado. Essa noção é central para fundamentar o uso de ozonioterapia como ferramenta de manutenção cognitiva em populações de risco — antes do desenvolvimento de demência franca.

6.5 Modelos complementares — Yan 2022 e Resitoglu 2018

Yan et al. (2022). Iranian Journal of Basic Medical Sciences, 25(8):980-988.

Dois modelos adicionais ampliam o espectro de evidência pré-clínica para contextos que não são doenças neurodegenerativas clássicas, mas que envolvem morte neuronal e disfunção cognitiva. Yan e colaboradores trabalharam com ratos submetidos a privação de sono REM — um insulto agudo que produz deficits de memória espacial e perda neuronal hipocampal. O ozônio intraperitoneal preveniu os deficits de aprendizagem espacial e protegeu os neurônios do hipocampo. O mecanismo identificado foi a supressão da Sema3A, uma semaforina associada a colapso de cone de crescimento axonal e morte neuronal em condições de estresse.

Resitoglu et al. (2018). Bratislava Medical Journal.

Resitoglu e colaboradores estudaram um modelo de lesão hipóxico-isquêmica em ratos neonatais — análogo experimental da encefalopatia hipóxico-isquêmica perinatal humana. Doses de O₃ intraperitoneal de 1 a 2 mg/kg reduziram significativamente a apoptose neuronal. A cognição, avaliada no Morris Water Maze, foi preservada em níveis comparáveis ao grupo sham (animais que não sofreram lesão). Em termos clínicos, isso significa que o tratamento previne o deficit cognitivo característico desse tipo de lesão.

A leitura conjunta é clara. A neuroproteção do ozônio não é específica de uma doença ou de uma faixa etária. É um efeito amplo e convergente, presente em insulto agudo (privação de sono, hipóxia-isquemia neonatal), neurodegeneração crônica (DA, DP) e envelhecimento fisiológico.

6.6 Síntese da evidência pré-clínica

Reunidos, os 6 modelos pré-clínicos compartilham uma assinatura mecanística comum, mesmo cobrindo doenças muito diferentes. Em todos eles, o ozônio reduziu o estresse oxidativo tecidual, suprimiu a neuroinflamação e conteve a morte neuronal — seja por apoptose, ferroptose ou outras vias.

Por que isso importa? Porque estresse oxidativo, neuroinflamação crônica e morte celular regulada são os 3 mecanismos finais comuns a praticamente todas as doenças neurodegenerativas. Variam as causas a montante (mutações no APP/PS1, exposição a rotenona, isquemia, envelhecimento), mas convergem no mesmo trio destrutivo a jusante. O ozônio atua exatamente sobre esses processos comuns — não sobre uma molécula específica de uma doença específica.

Essa é a justificativa biológica para a translação à clínica humana. Se o mecanismo é convergente e atua em um nó upstream, é razoável esperar que o efeito clínico também seja amplo: melhora cognitiva em CCL, em pós-AVC, em pós-COVID, em fragilidade geriátrica. É exatamente isso que o Capítulo 7 vai mostrar nos dados em pacientes reais.


CAPÍTULO 7: Evidência Clínica em Humanos — Os Dados que Mudam a Prática

A pergunta pragmática para quem ouve uma palestra sobre mecanismos é sempre a mesma: e nos pacientes, funciona? Este capítulo apresenta a evidência humana publicada até 2026 em ordem de relevância clínica: do maior estudo observacional em comprometimento cognitivo leve até o ECR italiano em fragilidade cognitiva, passando por AVC isquêmico agudo, pós-COVID e contextos cirúrgicos. A leitura final é que estamos muito além da anedota — embora ainda não no nível de consenso para uso rotineiro em demência.

7.1 Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) — Micarelli 2026 (n=174)

Micarelli A et al. (2026). Neurology International, 18(3):41.

Este é o estudo mais abrangente disponível em CCL. Trata-se de um coorte retrospectivo com 174 indivíduos — 81 com diagnóstico de comprometimento cognitivo leve e 93 controles cognitivamente saudáveis. O protocolo foi simples e replicável: 10 sessões de auto-hemoterapia maior (AHM), 2 vezes por semana, totalizando 5 semanas de tratamento.

Os desfechos cognitivos foram avaliados com 2 instrumentos consagrados: o Montreal Cognitive Assessment (MoCA) e o Mini-Mental State Examination (MMSE). A pontuação média do MoCA subiu de 23,72 para 24,88, com tamanho de efeito médio (d de Cohen = 0,66) e p<0,001. O MMSE, em contraste, não mostrou alteração significativa. Esse dado tem uma implicação clínica importante: o MMSE é menos sensível que o MoCA para detectar alterações cognitivas no espectro do CCL. Clínicos que dependem exclusivamente do MMSE para rastreamento podem estar perdendo mudanças clinicamente relevantes nessa população.

O achado talvez mais inesperado foi a função olfatória. A proporção de indivíduos normósmicos (com olfato preservado) aumentou de 32,1% para 50,6% após o tratamento — um ganho de 18,5 pontos percentuais. Os autores quantificaram também o TDI (Threshold-Discrimination-Identification), índice composto de olfato, e demonstraram correlação entre os ganhos olfatórios e os ganhos no MoCA total, bem como em domínios cognitivos selecionados.

A importância clínica desse achado olfatório é considerável. A disfunção olfatória é hoje reconhecida como biomarcador pré-clínico de Alzheimer e Parkinson, presente anos antes do diagnóstico clínico das doenças. O bulbo olfatório está entre as primeiras regiões cerebrais a acumular patologia tau e α-sinucleína. Se o ozônio melhora a função olfatória de forma correlacionada com a cognição, é razoável inferir que está atuando precocemente sobre a cascata neurodegenerativa — não apenas sobre o sintoma cognitivo já estabelecido.

A principal limitação é o desenho retrospectivo, que não permite atribuição causal rigorosa. Mas com n=174, tamanho de efeito d=0,66 e múltiplos desfechos convergentes (cognição e olfato), os sinais são fortes o suficiente para justificar ECRs confirmatórios — vários dos quais já estão em fase de submissão a comitês de ética.

7.2 AVC isquêmico agudo — Cheng 2025 ECR (n=62)

Cheng H, Lu R, Du J, Zhao X, Zhuang Z (2025). Frontiers in Medicine, 12:1595568. PMID: 40786087.

Este é o ECR mais robusto disponível em ozonioterapia neurológica até o momento. Desenho de 3 braços (controle sem intervenção adicional, placebo com oxigênio puro e ozonioterapia com auto-hemoterapia), 62 pacientes com infarto cerebral agudo confirmado por imagem. O protocolo: 100 mL de sangue autólogo misturado com 100 mL de mistura O₂-O₃ a 45 μg/mL, reinfundido por via intravenosa, 1 vez ao dia durante 5 dias consecutivos.

Os resultados foram robustos em múltiplos desfechos. O NIHSS — escala internacional de gravidade do AVC — reduziu em 30% no grupo ozônio em comparação com controle e placebo, com tamanho de efeito grande (d=0,8) e p<0,05. O Barthel Index, que avalia independência funcional, aumentou 25%. O MoCA melhorou 20% (d=0,7; p<0,05), confirmando o benefício cognitivo no contexto pós-AVC.

Os biomarcadores séricos de lesão neuronal mostraram a mesma direção. A enolase neurônio-específica (NSE) caiu 25% e a proteína S100β caiu 30%. Em paralelo, o status redox sérico melhorou: SOD e GSH-Px elevados, MDA reduzido.

O dado mais importante deste estudo, do ponto de vista translacional, foi a elevação significativa de Nrf-2 e HIF-1 séricos no grupo ozônio em comparação com controle e placebo (p<0,05). Isso é a confirmação in vivo, em seres humanos, exatamente do mecanismo descrito nos estudos pré-clínicos. Não é mais inferência mecanística baseada em camundongo: é demonstração direta de que a via Nrf2 — pedra angular do mecanismo proposto — é ativada em pacientes reais. Esse tipo de bridge entre mecanismo molecular e desfecho clínico é exatamente o que separa uma terapia com base biológica sólida de uma terapia baseada apenas em correlação clínica.

O perfil de segurança foi excelente. Não houve diferença significativa em função hepática, renal ou cardíaca entre os 3 grupos. Isso é particularmente relevante no contexto do AVC agudo, em que muitas terapias adjuvantes têm risco de complicações hemodinâmicas.

7.3 Pós-COVID — ECR n=140

Russian Journal of Physiology and Basic Research (2024), 23(1):57-67.

A pandemia de COVID-19 deixou um legado clínico que continua a ser estudado: o brain fog persistente, parte da síndrome pós-COVID, atinge milhões de pessoas com queixas de deficit de concentração, memória de trabalho prejudicada e fadiga cognitiva. Este ECR avaliou 140 pacientes com deficit cognitivo pós-COVID, randomizados para receber ozonioterapia sistêmica associada ao tratamento farmacológico padrão ou apenas o tratamento farmacológico.

Os resultados foram significativos em 2 dimensões. Cognitivamente, o MoCA mostrou melhora significativamente maior no grupo ozônio (p=0,002). Bioquimicamente, o BDNF plasmático — fator neurotrófico derivado do cérebro, crítico para plasticidade sináptica, aprendizado e memória — foi normalizado no grupo ozônio (p=0,034). Clinicamente, 95% dos pacientes do grupo ozônio tiveram recuperação clínica completa.

A relevância deste estudo é dupla. Primeiro, confirma o efeito cognitivo do ozônio em outro contexto clínico distinto do AVC e do CCL — reforçando a hipótese de neuroproteção convergente discutida no Capítulo 6. Segundo, e mais importante, demonstra a normalização do BDNF: um mecanismo neurotrófico que os fármacos convencionais para demência (donepezila, memantina, anti-amiloides) simplesmente não possuem. Atua nas 2 pontas da neurodegeneração: reduz o dano (via Nrf2 e supressão de NF-κB) e estimula a reparação (via BDNF).

7.4 Fragilidade cognitiva — ECR italiano (Scassellati 2024)

Scassellati C, Bonvicini C, Ciani M, et al. (2024). Journal of Personalized Medicine, 14(8):795. PMID: 39201987. ClinicalTrials.gov: NCT06071611.

Este é o ECR que pode redefinir o status da ozonioterapia no campo da neuroproteção. Desenho duplo-cego, controlado por placebo, financiado pelo Ministério da Saúde da Itália — características que respondem às críticas metodológicas mais comuns ao campo. 75 idosos com fragilidade cognitiva (a faixa que precede o CCL e o Alzheimer clínico) foram randomizados para receber tratamento ativo ou placebo.

O protocolo escolhido foi insuflação retal: 150 cc de mistura O₂-O₃ a 30 μg/mL, 3 sessões por semana durante 5 semanas, totalizando 15 sessões. Os endpoints incluem não apenas escalas clínicas validadas (IFI, SHARE-FIt e bateria neuropsicológica), mas também transcriptômica, proteômica e metabolômica — um conjunto de biomarcadores omics que permite caracterizar a resposta biológica ao tratamento em profundidade inédita para o campo.

O status atual é de estudo concluído, com resultados aguardados pela comunidade. Quando publicados, serão os primeiros dados de um ECR duplo-cego desenhado especificamente para avaliar ozonioterapia em deficit cognitivo relacionado à idade. Se confirmarem os achados do coorte de Micarelli 2026 e dos ECRs em AVC e pós-COVID, configurarão um divisor de águas: a partir desse ponto, a ozonioterapia terá nível de evidência compatível com outras terapias de neuromodulação aceitas em medicina geriátrica.

7.5 Outros contextos — cirurgia cardíaca e esclerose múltipla

A literatura clínica disponível inclui outros 2 contextos que merecem registro, mesmo que não no centro da discussão sobre Alzheimer.

Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (2022). O estudo avaliou autohemoterapia ozonizada durante bypass cardiopulmonar — procedimento associado a deficit cognitivo perioperatório (POCD) em até 30% dos pacientes idosos. O grupo tratado mostrou redução de S100β e NSE no pós-operatório e melhora dos escores MoCA e MMSE no 7º dia. A relevância prática é a possibilidade de proteção cognitiva perioperatória — uma janela clínica bem definida em que o cérebro é exposto a estresse oxidativo agudo e em que o paciente pode se beneficiar da ativação preventiva das defesas antioxidantes.

Molinari F et al. (2014). n=54 (32 pacientes com doenças neurológicas e 22 controles). Utilizando espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), os autores demonstraram aumento da hemoglobina oxigenada e do citocromo c (proxy de oxigenação tecidual e função mitocondrial) e redução dos índices de estresse oxidativo crônico nos pacientes neurológicos tratados. Esse estudo é particularmente útil para validar in vivo a melhora da oxigenação cerebral discutida nos mecanismos.

7.6 Hierarquia de evidência — onde estamos e onde precisamos chegar

A organização da evidência em pirâmide clarifica o estado atual do campo.

Nível 1 (meta-análises e ECRs). Meta-análise mecanística de Scassellati 2020 (Nrf2 OR=1,71; p<0,00001), ECR de Cheng 2025 em AVC isquêmico agudo (n=62), ECR pós-COVID 2024 (n=140) e ECR italiano NCT06071611 (n=75, concluído, resultados aguardados).

Nível 2 (coortes e estudos observacionais). Coorte retrospectivo de Micarelli 2026 em CCL (n=174), estudo em cirurgia cardíaca 2022 e estudo observacional em esclerose múltipla de Molinari 2014 (n=54).

Nível 3 (estudos pré-clínicos animais). Lin 2019 (APP/PS1), Kaplan Algin 2023 (Parkinson, n=48), El-Mehi 2020 (envelhecimento), Zhu 2024 (ferroptose-Nrf2), Yan 2022 (privação de sono REM) e Resitoglu 2018 (hipóxia neonatal).

Nível 4 (revisões e diretrizes). Revisões de Scassellati 2020/2021, Zhang 2025 e Masan 2021. Diretrizes da ISCO3 (Declaração de Madrid, 3ª edição) e WFOT.

A leitura conjunta dessa pirâmide leva a 3 conclusões. Primeira: a evidência é crescente e convergente. Em 2020, o campo era essencialmente revisões e estudos pré-clínicos. Em 2026, temos ECRs com tamanho de efeito grande em AVC, ECR em pós-COVID e coorte sólido em CCL. Segunda: ainda não estamos no nível de consenso para recomendação rotineira em demência. Faltam ECRs multicêntricos de grande porte em DA e DP especificamente, estudos head-to-head com fármacos convencionais e biomarcadores de resposta validados. Terceira, e mais importante para a prática clínica: estamos muito além da anedota. A trajetória é claramente ascendente, e a publicação do ECR italiano provavelmente moverá a ozonioterapia para o terreno do "considerar em casos selecionados com indicação clara" em vez de "evidência insuficiente para qualquer uso".

Para o clínico que trabalha com deficit cognitivo na prática real, isso significa: a ozonioterapia não é mais uma terapia exótica sem base. Tem mecanismo molecular caracterizado, replicado em múltiplos modelos animais, com confirmação translacional em humanos via Nrf2 sérico, e com benefícios cognitivos mensuráveis em pelo menos 3 contextos clínicos distintos (CCL, AVC pós-agudo, pós-COVID). Como ferramenta complementar dentro de protocolos multimodais — sobretudo em pacientes com componente vascular, inflamatório ou metabólico relevante — já tem espaço justificável. O capítulo seguinte detalha os protocolos práticos para aplicação clínica.


CAPÍTULO 8: Protocolos Terapêuticos — Como Aplicar na Prática

8.1 Auto-Hemoterapia Maior (AHM) — padrão-ouro para neuroproteção sistêmica

A auto-hemoterapia maior é, sem disputa, a via mais bem caracterizada e mais reproduzida nos ensaios clínicos de ozonioterapia voltados ao sistema nervoso central. Quando se discute neuroproteção sistêmica e efeito sobre cognição, perfusão cerebral, BDNF e marcadores de lesão neuronal, o protocolo de referência é a AHM. Os dois ensaios humanos mais robustos que dispomos hoje — Cheng 2025 em AVC isquêmico agudo (n=62) e Micarelli 2026 em comprometimento cognitivo leve (n=174) — utilizaram precisamente essa via.

O procedimento técnico segue um padrão consolidado pela ISCO3 (Declaração de Madrid, 3ª ed.) e pela WFOT. Coleta-se 100 a 200 mL de sangue venoso do paciente em recipiente estéril, fechado, hermeticamente selado e resistente ao ozônio — sempre vidro neutro ou polímeros aprovados (NÃO cloreto de polivinila comum, que degrada e libera ftalatos). O anticoagulante padrão é citrato de sódio ou heparina, em volume proporcional ao sangue coletado.

A mistura gasosa O₂/O₃ é então insuflada no recipiente na concentração desejada, dentro da janela terapêutica de 10 a 80 μg/mL recomendada pela ISCO3. A recomendação prática, fundamentada na fisiologia da hormese e na experiência clínica acumulada, é iniciar com 20 μg/mL nas primeiras 2 a 3 sessões e titular gradualmente até 40 a 50 μg/mL — o intervalo onde a maioria dos ensaios clínicos demonstrou eficácia. Concentrações acima de 60 μg/mL devem ser reservadas a condições específicas e a profissionais experientes, sob monitorização do status antioxidante.

A reinfusão ao paciente é feita por via intravenosa, gota a gota, em 20 a 30 minutos. A frequência ideal para neuroproteção, baseada na literatura, é de 2 a 3 sessões por semana. Exemplos clínicos práticos: Micarelli 2026 utilizou 10 sessões, 2 vezes por semana, totalizando 5 semanas — protocolo apropriado para CCL e fragilidade cognitiva ambulatorial. Cheng 2025, por sua vez, usou 5 sessões diárias consecutivas — esquema apropriado para urgência neurológica como o AVC isquêmico agudo.

Para manutenção crônica em quadros como CCL estabelecido, doença de Alzheimer leve ou fragilidade cognitiva relacionada à idade, a recomendação é de 2 a 3 ciclos de 10 a 20 sessões por ano, espaçados de 4 a 6 meses. Esse esquema permite manter ativação contínua da via Nrf2 sem causar tolerância ou sobrecarga.

8.2 Insuflação Retal (IR) — alternativa não invasiva

A insuflação retal é a alternativa não invasiva mais validada cientificamente e foi precisamente a via escolhida pelo ECR italiano de Scassellati (NCT06071611). O protocolo italiano padrão utiliza 150 cc de mistura O₂-O₃ a 30 μg/mL, administrados por cateter retal CH14-CH18 com o paciente em decúbito lateral esquerdo. A insuflação leva 5 a 10 minutos, e o paciente deve reter o gás por aproximadamente 30 minutos. A frequência foi de 3 sessões por semana durante 5 semanas, totalizando 15 sessões.

A faixa de concentração aceita para insuflação retal varia de 10 a 50 μg/mL, e o volume pode chegar a 300 mL em pacientes que toleram bem. As vantagens são clinicamente relevantes: não requer punção venosa, é significativamente menos invasiva, tem custo menor, é viável como terapia domiciliar (alta relevância em geriatria onde a mobilidade é limitada) e dispensa equipamento de coleta sanguínea. Para o paciente idoso com fragilidade cognitiva ou para uso domiciliar prolongado, a IR é, na prática, a melhor opção.

Há ainda um diferencial mecanístico importante: a IR modula diretamente a microbiota intestinal, acessando o eixo intestino-cérebro. Cheng e colaboradores demonstraram em 2024, no Medical Gas Research, que a insuflação retal de O₃ em camundongos com privação de sono melhorou a função cognitiva por dois mecanismos sinérgicos: redução de inflamação sistêmica e modulação da microbiota intestinal. Considerando o papel cada vez mais reconhecido do microbioma intestinal na patogenia da neurodegeneração, esse mecanismo adicional pode ser um diferencial clínico relevante.

8.3 Auto-Hemoterapia Menor (AHMe) — imunomodulação

A auto-hemoterapia menor utiliza um volume reduzido — 2 a 10 mL de sangue venoso misturado com a mistura gasosa O₂/O₃ — e a reinjeção é feita por via intramuscular. A ISCO3 recomenda concentrações de 10 a 40 μg/mL para essa via. Concentrações acima de 60 μg/mL devem ser evitadas, pois causam hemólise excessiva e paradoxalmente reduzem a ativação imune desejada.

O uso principal da AHMe é imunomodulação — quadros alérgicos, autoimunes, infecções recorrentes. Não é a primeira escolha para neuroproteção sistêmica, mas pode ter papel adjuvante em pacientes com componente inflamatório sistêmico significativo ou quando a punção venosa para AHM é tecnicamente difícil.

8.4 Salina ozonizada (IV) e práticas proibidas

A salina pré-ozonizada — solução salina fisiológica saturada com ozônio antes da infusão intravenosa — é utilizada em algumas clínicas, particularmente na Rússia e na China, no contexto de AVC. A evidência específica para neuroproteção é menor que a da AHM, e a estabilidade do ozônio em solução salina é breve, o que limita reprodutibilidade.

Aqui é fundamental fazer um esclarecimento que pode salvar vidas: a injeção intravenosa DIRETA de gás ozônio é absolutamente PROIBIDA pela ISCO3 e pela WFOT. O risco de embolia gasosa é real e potencialmente fatal. A AHM e a salina ozonizada NÃO injetam gás livre — injetam sangue ou líquido que já reagiu com o ozônio e contém os mensageiros secundários estáveis (H₂O₂, 4-HNE).

A inalação direta de ozônio também é absolutamente PROIBIDA. Os dados de Valdés-Fuentes 2024 e Marin-Castañeda 2024 são inequívocos: inalação crônica é pneumotóxica, neurotóxica e mimetiza patologia parkinsoniana. Nenhum protocolo legítimo de ozonioterapia utiliza inalação direta. A confusão entre essas vias arriscadas e as vias seguras é a principal fonte de desinformação que prejudica a aceitação científica da ozonioterapia.

8.5 Protocolo prático integrado

A integração à prática clínica exige avaliação inicial estruturada. O bloco mínimo de exames recomendados antes de iniciar inclui: dosagem de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) — para excluir favismo —; status antioxidante total (TAS) no plasma; função hepática, renal e hemograma completo; anamnese detalhada de medicamentos, comorbidades e alergias. Em paciente com queixa cognitiva, acrescentar MoCA basal e, idealmente, avaliação olfatória por TDI (Test of Threshold-Discrimination-Identification) — o achado de Micarelli 2026 mostrou que o olfato é um biomarcador sensível de resposta.

Esquema sugerido para CCL ou queixa cognitiva subjetiva inicial: AHM 2 vezes por semana, totalizando 10 sessões em 5 semanas, com reavaliação de MoCA e olfato em 6 semanas. Se houver resposta clínica e bioquímica, manutenção com novo ciclo de 10 sessões a cada 4 a 6 meses.

Esquema sugerido para fragilidade cognitiva em idoso com mobilidade limitada: insuflação retal domiciliar (após treinamento de cuidador) com 150 cc de O₂-O₃ a 30 μg/mL, 3 vezes por semana durante 5 semanas, totalizando 15 sessões. Reavaliação clínica e cognitiva em 6 a 8 semanas.

A monitorização ao longo do tratamento deve incluir: registro de eventos adversos (tipicamente menores: tontura transitória, equimose, desconforto na punção); reavaliação periódica do TAS para confirmar manutenção de capacidade antioxidante adequada; e aplicação seriada do MoCA a cada ciclo de tratamento.


CAPÍTULO 9: Janela Terapêutica, Segurança e Contraindicações

9.1 A dose faz o veneno — e o remédio

A frase de Paracelso, atribuída ao século XVI, encontra na ozonioterapia uma das suas expressões mais didáticas. A diferença entre cura e dano, com a mesma molécula, está estritamente determinada pela dose e pela via de administração. A tabela mental que todo profissional que aplica ozônio deve carregar é simples:

Abaixo de 10 μg/mL no contexto sistêmico (AHM), o ozônio é subterapêutico — não produz efeito biológico relevante. Entre 10 e 80 μg/mL, encontra-se a janela terapêutica, onde a hormese oxidativa controlada ativa Nrf2 e desencadeia toda a cascata neuroprotetora descrita nos capítulos anteriores. Concentrações entre 80 e 160 μg/mL excedem a capacidade de tamponamento antioxidante do plasma — o sangue não consegue mais neutralizar o estresse oxidativo gerado, e o efeito hormético se converte em estresse descontrolado. Acima de 160 μg/mL, o quadro é francamente tóxico: hemólise, peroxidação lipídica generalizada e desnaturação proteica.

Os dados de Frosini, citados na revisão abrangente de Zhang e colaboradores em 2025 no Medical Gas Research, confirmam in vitro essa curva bifásica de forma elegante. Em fatias cerebrais de rato submetidas a privação de oxigênio e glicose (modelo de isquemia), o ozônio a concentrações de 80 a 120 μg/mL REVERTEU a lesão isquêmica e protegeu os neurônios. Na mesma preparação experimental, ozônio a 160 μg/mL AGRAVOU a lesão. Mesmo agente, mesma via, mesmo tecido — apenas a dose mudou, e o efeito biológico se inverteu. Esse é o princípio fundamental que todo aplicador deve internalizar.

Há também uma nota técnica importante sobre concentração efetiva intra-sanguínea versus concentração no gás. A concentração medida pelo gerador refere-se ao gás insuflado. Após a mistura com o sangue, a concentração efetiva que atinge o plasma é menor — daí a importância da janela 10-80 μg/mL na fonte gasosa, garantindo que o sangue reinfundido contenha mensageiros secundários em concentrações fisiológicas.

9.2 Perfil de segurança excepcional

A taxa de eventos adversos da ozonioterapia, segundo o levantamento clássico de Jacobs em 1982 (citado por Bocci e adotado pela WFOT), é de 0,0007%. Isso significa 7 eventos em 1 milhão de tratamentos — um dos perfis de segurança mais favoráveis da medicina contemporânea. Para comparação, o lecanemab tem ARIA em 12,6% (edema) e 17,3% (micro-hemorragias) — taxas que diferem em várias ordens de grandeza.

Os eventos adversos observados são menores e transitórios: desconforto na punção venosa, tontura leve durante ou logo após a sessão (geralmente vasovagal), equimose subcutânea no local da punção que resolve em uma semana, sensação de "calor" durante a reinfusão. O ECR de Cheng 2025 em AVC isquêmico agudo — contexto clínico de alta complexidade — confirmou ausência de diferença significativa em função hepática, renal ou cardíaca entre os 3 grupos (controle, oxigênio puro, ozônio) ao longo do tratamento.

Por que essa segurança é tão alta? A resposta está no mecanismo. O ozônio não é um xenobiótico convencional que se acumula em tecidos — ele reage em milissegundos com o sangue, gerando os mensageiros secundários estáveis. O efeito clínico observado é mediado por ativação de sistemas endógenos (Nrf2, defesas antioxidantes, autofagia, BDNF) — sistemas que o organismo já possui e regula. Em outras palavras, o ozônio atua como modulador biológico de sistemas inatos, não como agente exógeno que precisa ser metabolizado e excretado.

9.3 Contraindicações absolutas

A lista de contraindicações é curta, bem definida e fundamentada em fisiologia conhecida:

  1. Deficiência de G6PD (favismo): o paciente não consegue regenerar glutationa via via das pentoses. A exposição ao ozônio, que demanda alta capacidade de tamponamento antioxidante, pode desencadear hemólise catastrófica. Triagem prévia é obrigatória, especialmente em populações com prevalência aumentada (Mediterrâneo, África subsaariana, sudeste asiático).

  2. Hipertireoidismo descontrolado (Doença de Graves): o ozônio estimula o metabolismo basal por aumentar entrega tecidual de O₂ e ativar vias mitocondriais. Em paciente com tireotoxicose, o risco teórico é de precipitar tempestade tireoidiana. Compensar a função tireoidiana antes de iniciar.

  3. Distúrbios hemorrágicos ativos ou trombocitopenia severa: a AHM requer anticoagulação do sangue coletado, e o paciente com coagulopatia tem risco aumentado de complicações na punção venosa. Esquema alternativo: IR, que não requer punção.

  4. Gravidez: ausência de dados de segurança em gestantes. Por princípio de precaução, evita-se.

  5. Infarto agudo do miocárdio (IAM) recente: instabilidade hemodinâmica potencial durante reinfusão. Aguardar estabilização clínica (mínimo 4 a 6 semanas pós-evento) antes de considerar a terapia.

  6. Inalação direta de O₃: PROIBIDA — toxicidade pulmonar e neurológica severas, conforme exposto nos capítulos anteriores.

  7. Injeção IV direta de gás: PROIBIDA pela ISCO3 e WFOT — risco de embolia gasosa potencialmente fatal.

9.4 Precauções obrigatórias

Antes de iniciar qualquer protocolo, o seguinte deve ser confirmado: dosagem de G6PD; status antioxidante total (TAS) no plasma — paciente com TAS muito reduzido tem capacidade limitada de tamponamento e deve iniciar com concentrações mais baixas (20 μg/mL); função hepática, renal e hemograma completo; anamnese detalhada com lista completa de medicamentos (atenção especial a anticoagulantes, antiagregantes, imunossupressores).

Do lado técnico, exigências obrigatórias: uso exclusivo de oxigênio medicinal para gerar o ozônio (NUNCA ar comprimido, que contém nitrogênio e gera óxidos de nitrogênio neurotóxicos quando submetido à descarga elétrica do gerador); gerador certificado, calibrado diariamente, com leitura digital da concentração; recipientes de coleta sanguínea resistentes ao ozônio (vidro neutro ou polímeros específicos — PVC comum degrada e libera plastificantes tóxicos); seringas e cateteres compatíveis.

9.5 Segurança a longo prazo

Um aspecto pouco enfatizado nas discussões públicas sobre ozonioterapia, mas crucial para o profissional que acompanha pacientes crônicos, é a segurança ao longo de anos. Pacientes que mantêm aderência a ciclos de manutenção por períodos de 5, 10 e mesmo 15 anos não demonstram sinais de toxicidade cumulativa, exaustão imune ou deterioração de função orgânica. Estudos de seguimento de longo prazo, especialmente em populações italiana e cubana onde a prática é regulamentada há décadas, mantêm o mesmo perfil de eficácia sem perda progressiva.

A explicação fisiológica é coerente: como o ozônio reativa defesas endógenas em vez de substituí-las, não há o fenômeno de tolerância farmacológica clássica que vemos com benzodiazepínicos, opioides ou mesmo inibidores da colinesterase. O sistema antioxidante endógeno responde a cada ciclo como um treinamento renovado, e a resposta se mantém. Esse padrão é raro entre intervenções farmacológicas e é um dos argumentos mais sólidos a favor da incorporação da ozonioterapia em protocolos crônicos de neuroproteção.


CAPÍTULO 10: Conclusões, Lacunas e Direções Futuras

10.1 Comparativo com tratamentos convencionais

Para o clínico que precisa decidir onde a ozonioterapia se encaixa no arsenal terapêutico atual da neurodegeneração, vale uma comparação direta com as classes de fármacos disponíveis.

Os inibidores da acetilcolinesterase — donepezila, rivastigmina, galantamina — atuam na fenda sináptica, aumentando a disponibilidade de acetilcolina. Têm benefício modesto e temporário (geralmente 6 a 12 meses de melhora cognitiva discreta), efeitos adversos gastrointestinais frequentes (náusea, vômito, diarreia), bradicardia e insônia comuns. Crucialmente, não modificam a progressão da doença subjacente.

A memantina atua como antagonista não competitivo do receptor NMDA, modulando a excitotoxicidade glutamatérgica. É indicada em DA moderada a grave. Reverte declínio cognitivo de forma limitada e tem perfil de tolerabilidade razoável, mas também não modifica a história natural da doença.

Os anticorpos monoclonais anti-amiloide — lecanemab, donanemab — representam o avanço farmacológico mais recente, atacando diretamente a patologia amiloide. Os dados do trial Clarity-AD com lecanemab mostraram redução de 27% no CDR-SB, o que se traduz em aproximadamente 0,5 ponto numa escala de 18 pontos — significância estatística inquestionável, relevância clínica marginal. O perfil de eventos adversos é preocupante: ARIA com 12,6% de edema cerebral e 17,3% de micro-hemorragias. O custo, US$ 26 mil por ano, limita drasticamente o acesso populacional.

A ozonioterapia, por contraste, atua upstream e em múltiplos mecanismos simultaneamente: Nrf2 e defesas antioxidantes, NF-κB e neuroinflamação, função mitocondrial e biogênese, perfusão cerebral e oxigenação tecidual, autofagia e depuração de Aβ/tau, BDNF e neurotrofismo. O benefício clínico é mensurável (MoCA com d=0,66 a 0,8 nos estudos disponíveis). A taxa de eventos adversos é 0,0007% — sete ordens de grandeza menor que o lecanemab para ARIA. O custo é acessível, viabilizando uso populacional amplo.

A mensagem clínica essencial: a ozonioterapia é COMPLEMENTAR, NÃO SUBSTITUTIVA. Pode potencializar a entrega de fármacos pela melhora da BHE e da perfusão cerebral. Pode reduzir a carga inflamatória que limita a eficácia dos imunoclearance amyloid agents. Encaixa-se naturalmente em protocolos multimodais como o ReCODE do Dr. Dale Bredesen, endereçando simultaneamente os subtipos inflamatório (Tipo 1), tóxico (Tipo 3) e vascular (Tipo 4) descritos pelo autor.

10.2 Lacunas críticas da evidência

A honestidade científica exige reconhecer onde a evidência ainda é insuficiente. As lacunas críticas atuais são as seguintes:

  1. Ausência de ECR multicêntrico de grande porte em DA ou DP estabelecidos. Os ECRs disponíveis têm n entre 62 e 140, o que limita o poder estatístico e a generalização. Falta um trial de fase 3 com n≥500 em demência ou Parkinson clínicos.

  2. Relação dose-resposta exata indefinida. O limite superior terapêutico permanece controverso — 40 μg/mL (mais conservador, defendido por algumas escolas) versus 80 μg/mL (defendido pela ISCO3). Estudos dose-finding específicos para neurodegeneração não foram conduzidos.

  3. Ausência de estudos head-to-head. Não há comparação direta entre ozonioterapia e donepezila, memantina ou lecanemab. Apenas inferências por estudos paralelos.

  4. Falta de biomarcadores de resposta validados. Qual marcador acompanha objetivamente a eficácia terapêutica? Nrf2 sérico? TAS? BDNF plasmático? São candidatos, mas nenhum está formalmente validado como biomarcador de resposta.

  5. Duração ideal de tratamento não padronizada. Os protocolos publicados variam de 5 sessões consecutivas (AVC agudo) a 15 sessões em 5 semanas (CCL/fragilidade). Não há consenso sobre duração ideal para neuroproteção crônica nem sobre intervalos de manutenção.

  6. Mecanismos específicos em DA pouco explorados. Existe apenas 1 estudo pré-clínico em modelo transgênico de DA (Lin 2019 em APP/PS1). Faltam estudos em modelos de tauopatia pura e em modelos triplo-transgênicos.

  7. Parkinson clínico: zero estudos clínicos em humanos. Toda a evidência em DP atualmente é pré-clínica. Há urgência de ensaios clínicos pioneiros nessa condição.

  8. Regulamentação heterogênea internacional. A FDA proíbe o uso médico nos EUA. Itália, Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba, China e Rússia regulamentam. No Brasil, o CFM reconhece a ozonioterapia como ato médico (Resolução 2.499/2022) com condições específicas. Essa heterogeneidade dificulta a condução de ECRs multicêntricos internacionais.

10.3 Direções futuras

A agenda de pesquisa que se desenha para os próximos 5 a 10 anos é clara e promissora. Em primeiro lugar, ECRs multicêntricos em CCL e DA inicial — o ECR italiano de Scassellati (NCT06071611) é o pioneiro, com resultados aguardados para definir parâmetros futuros. Em segundo, estudos dose-finding com Nrf2 sérico, BDNF plasmático e Aβ42 como endpoints intermediários. Em terceiro, estudos combinados de ozônio mais donepezila ou memantina versus monoterapia, para testar sinergia clínica. Em quarto, validação da insuflação retal domiciliar como estratégia escalável e custo-efetiva para fragilidade cognitiva em populações idosas com mobilidade limitada.

A neuroimagem funcional é uma fronteira crítica. PET-amiloide, PET-tau e ressonância funcional permitiriam avaliar in vivo o impacto do ozônio sobre carga amiloide, hiperfosforilação de tau, perfusão cerebral e conectividade funcional. Esses dados objetivos seriam transformadores para a aceitação científica.

Por fim, a modulação da microbiota intestinal pelo ozônio — particularmente pela via retal — abre uma frente de investigação especialmente promissora dado o reconhecimento crescente do eixo intestino-cérebro como fator patogênico na neurodegeneração.

10.4 Síntese final e mensagens-chave

O ozônio médico em baixa dose sistêmica oferece um perfil terapêutico raro na medicina contemporânea — multimodal, seguro, acessível, mecanisticamente sólido. A evidência clínica em humanos é crescente e convergente: ECR robusto em AVC isquêmico agudo, ECR em comprometimento cognitivo pós-COVID, coorte expressivo em CCL, ECR italiano concluído em fragilidade cognitiva. As lacunas existem e devem ser reconhecidas, mas a trajetória é claramente ascendente.

A ozonioterapia já não é uma terapia alternativa de bordo da medicina — é uma intervenção upstream com lastro científico crescente, capaz de complementar (não substituir) o arsenal atual contra a neurodegeneração. Para o clínico que trabalha com protocolos multimodais como o ReCODE, é uma peça que se encaixa naturalmente. Para o paciente, oferece uma opção segura, mensurável e financeiramente acessível.

Mensagens-Chave

  1. Dose define identidade — O₃ em 10-80 μg/mL sistêmico = neuroprotetor; inalação = neurotóxico (Valdés-Fuentes 2024; Marin-Castañeda 2024)
  2. Nrf2/Keap1 é o centro do mecanismo — meta-análise OR=1,71 (p<0,00001); atua também em NF-κB, perfusão, autofagia e BDNF
  3. Evidência clínica em humanos já existe — ECR AVC (Cheng 2025, n=62, NIHSS −30%); ECR pós-COVID (n=140, 95% recuperação completa); coorte CCL (Micarelli 2026, n=174, MoCA d=0,66)
  4. Segurança excepcional — taxa de eventos adversos 0,0007% (Jacobs 1982 / WFOT) = 7 em 1 milhão; contraindicações bem definidas
  5. Complementar ao ReCODE — endereça simultaneamente inflamação (Tipo 1), perfusão (Tipo 4), detoxificação (Tipo 3) e neurotrofismo

APÊNDICE A: PERGUNTAS FREQUENTES

1. Se o ozônio inalado é tóxico, como pode ser terapêutico?

A chave é a DOSE e a VIA. A inalação crônica de poluentes ambientais (concentrações de 0,25 ppm durante várias horas por dia) ativa NF-κB, gera espécies reativas em quantidade que excede o tamponamento antioxidante do pulmão e desencadeia neuroinflamação crônica via eixo pulmão-cérebro. Já a aplicação sistêmica controlada (10 a 80 μg/mL no sangue por AHM ou IR) gera mensageiros secundários — H₂O₂ e 4-HNE — em concentrações muito baixas, fisiológicas, que ATIVAM defesas endógenas via Nrf2. O mesmo agente químico produz efeitos opostos dependendo da dose, via e duração. É o princípio da hormese, sustentado pela mesma fisiologia que torna o exercício benéfico (estresse oxidativo controlado) e a poluição prejudicial (estresse oxidativo descontrolado).

2. Quantas sessões são necessárias para ver benefício cognitivo?

Os estudos clínicos disponíveis utilizam protocolos bem definidos. Em CCL (Micarelli 2026), foram 10 sessões de AHM, 2 vezes por semana, durante 5 semanas. No ECR italiano (Scassellati 2024), 15 sessões de IR, 3 vezes por semana, durante 5 semanas. Em AVC agudo (Cheng 2025), 5 sessões diárias consecutivas. Melhora cognitiva mensurável (MoCA com tamanho de efeito d=0,66 a 0,8) tipicamente após 5 a 6 semanas. Para manutenção crônica, recomenda-se 2 a 3 ciclos por ano, espaçados de 4 a 6 meses.

3. A ozonioterapia substitui donepezila ou lecanemab?

NÃO. É complementar. A ozonioterapia pode inclusive potencializar a entrega e a eficácia dos fármacos convencionais por melhorar a perfusão cerebral e a integridade da BHE. Estudos head-to-head ainda não existem, mas em protocolos multimodais como o ReCODE, a ozonioterapia atua sinergicamente sobre os múltiplos pilares da doença. A combinação racional é: fármaco convencional + ozonioterapia + modificações de estilo de vida (sono, exercício, dieta, suplementação) + tratamento de comorbidades.

4. Quais exames pedir antes de iniciar?

O bloco básico: dosagem de G6PD (excluir favismo, risco de hemólise catastrófica), status antioxidante total (TAS) no plasma, função hepática (TGO, TGP, GGT, fosfatase alcalina), função renal (creatinina, ureia, TFG), hemograma completo, perfil de coagulação. Em paciente com queixa cognitiva: MoCA basal, e idealmente TDI (olfato) para acompanhamento — o achado de Micarelli 2026 reforça o valor do olfato como marcador sensível.

5. O ozônio modifica progressão da doença ou só sintomas?

Os dados pré-clínicos sugerem MODIFICAÇÃO da progressão. Em APP/PS1 (Lin 2019), o ozônio reduziu placas amiloides — um achado patológico, não apenas sintomático. Em modelos de Parkinson (Kaplan Algin 2023), preservou neurônios dopaminérgicos. Em isquemia cerebral (Zhu 2024), bloqueou ferroptose neuronal. Em humanos, a evidência ainda é emergente, mas o ECR italiano (NCT06071611) com endpoints de transcriptômica, proteômica e metabolômica pode trazer dados longitudinais relevantes. A normalização de BDNF observada no ECR pós-COVID é um sinal de modificação biológica, não apenas sintomática.

6. Quem NÃO pode receber ozonioterapia?

Contraindicações absolutas: deficiência de G6PD, hipertireoidismo descontrolado, distúrbios hemorrágicos ativos ou trombocitopenia severa, gravidez, infarto agudo do miocárdio recente. NUNCA por inalação direta ou por injeção intravenosa direta de gás (risco de embolia gasosa potencialmente fatal). Cautela em pacientes em uso de anticoagulantes (ajuste de dose de citrato/heparina no recipiente) e em pacientes com TAS muito reduzido (iniciar com concentrações mais baixas).

7. Em que países a ozonioterapia é regulamentada?

Países com regulamentação ativa ou aceitação ampla: Itália (especialidade médica reconhecida), Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba (programa nacional consolidado), China e Rússia. Estados Unidos: a FDA proíbe o uso médico do ozônio. Brasil: o Conselho Federal de Medicina reconhece a ozonioterapia como ato médico através da Resolução 2.499/2022, com condições específicas de habilitação e prática. A ISCO3 e a WFOT publicam diretrizes internacionais que orientam a prática mesmo em países sem regulamentação local específica.


APÊNDICE B: NÚMEROS-CHAVE PARA MEMORIZAR

Dado Valor Fonte
Pessoas com demência no mundo (2021) 57 milhões OMS
Projeção 2050 ~139 milhões OMS
Alzheimer dentro do total 60-70% OMS
Lecanemab — redução CDR-SB 27% (≈0,5 ponto em escala de 18) trial Clarity-AD
Lecanemab — ARIA edema 12,6% trial Clarity-AD
Lecanemab — ARIA micro-hemorragia 17,3% trial Clarity-AD
Custo lecanemab US$ 26 mil/ano preço lista 2024
Janela terapêutica O₃ médico 10-80 μg/mL ISCO3/WFOT
Concentração inicial recomendada (AHM) 20 μg/mL prática clínica/ISCO3
Concentração de titulação (AHM) 40-50 μg/mL prática clínica/ISCO3
Volume AHM 100-200 mL sangue ISCO3
Volume insuflação retal 150 cc (até 300 mL) Scassellati 2024
Concentração IR (ECR italiano) 30 μg/mL NCT06071611
Taxa de eventos adversos 0,0007% Jacobs 1982 (WFOT)
Meta-análise Nrf2 OR=1,71 (IC 95% 1,17-2,25; p<0,00001) Scassellati 2020
Meta-análise sistema vitagene-Nrf2 OR=1,80 (IC 95% 1,05-2,55; p<0,00001) Scassellati 2020
Meta-análise NF-κB/NLRP3 (mRNA) OR=-5,25 Scassellati 2020
Meta-análise NF-κB/NLRP3 (proteína) OR=-4,85 Scassellati 2020
ECR AVC — NIHSS −30% (d=0,8; p<0,05) Cheng 2025, n=62
ECR AVC — Barthel Index +25% Cheng 2025, n=62
ECR AVC — MoCA +20% Cheng 2025, n=62
ECR AVC — NSE (lesão neuronal) −25% Cheng 2025, n=62
ECR AVC — S100β −30% Cheng 2025, n=62
Coorte CCL — MoCA 23,72 → 24,88 (d=0,66; p<0,001) Micarelli 2026, n=174
Coorte CCL — normósmicos 32,1% → 50,6% (+18,5 pp) Micarelli 2026, n=174
ECR pós-COVID — BDNF p=0,034 (normalização) Russian J Physiol 2024, n=140
ECR pós-COVID — MoCA p=0,002 Russian J Physiol 2024, n=140
ECR pós-COVID — recuperação completa 95% no grupo O₃ Russian J Physiol 2024
ECR italiano — protocolo 150 cc, 30 μg/mL, 3×/sem × 5 sem Scassellati 2024 (NCT06071611), n=75
Dose Frosini in vitro — terapêutica 80-120 μg/mL (reverteu lesão) Frosini (em Zhang 2025)
Dose Frosini in vitro — tóxica 160 μg/mL (agravou) Frosini (em Zhang 2025)
Lin 2019 — modelo APP/PS1 30-50 μg/mL IP × 25 dias Neuroscience 418:110-121
Kaplan Algin 2023 — Parkinson rotenona 2 mg/kg IP, n=48 ratos Neurosci Lett 812:137448

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  28. ISCO3 — International Scientific Committee of Ozone Therapy. Declaração de Madrid sobre Ozonioterapia. 3ª edição, 2020.

  29. WFOT — World Federation of Ozone Therapy. WFOT's Review on Evidence-Based Ozone Therapy. Brescia, Italy; 2015.

  30. Bredesen DE. Reversal of cognitive decline: a novel therapeutic program. Aging (Albany NY). 2014;6(9):707-717. PMID: 25324467. [Base teórica do protocolo ReCODE — abordagem multimodal para neurodegeneração.]

  31. Conselho Federal de Medicina (Brasil). Resolução CFM nº 2.499/2022 — Define a ozonioterapia como prática médica e estabelece critérios para sua aplicação.

  32. van Dyck CH, Swanson CJ, Aisen P, et al. Lecanemab in Early Alzheimer's Disease (Clarity-AD trial). N Engl J Med. 2023;388:9-21. [Trial de referência para dados de eficácia e ARIA do lecanemab citados no comparativo.]

  33. Bocci V. Ozone: A new medical drug. 2nd ed. Springer; 2011. [Texto de referência seminal sobre fundamentos da ozonioterapia médica.]

  34. Sagai M, Bocci V. Mechanisms of Action Involved in Ozone Therapy: Is healing induced via a mild oxidative stress? Med Gas Res. 2011;1:29. PMID: 22185664. [Base mecanística da hormese oxidativa.]

  35. Smith NL, Wilson AL, Gandhi J, Vatsia S, Khan SA. Ozone therapy: an overview of pharmacodynamics, current research, and clinical utility. Med Gas Res. 2017;7(3):212-219. PMID: 29152215.


Manual de Estudo Completo — Ozonioterapia e Neuroproteção, Dr. Alain Dutra, 2026 Extensão alvo: 15.000-20.000 palavras (~30 páginas)

# OZONIOTERAPIA E NEUROPROTEÇÃO: EVIDÊNCIAS NO DEFICIT COGNITIVO, ALZHEIMER E DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS

## Manual de Estudo Completo para Médicos, Profissionais de Saúde e Pesquisadores

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# PRÓLOGO: O Paradoxo da Molécula de Três Oxigênios

A demência é, hoje, um dos maiores desafios da medicina contemporânea. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 57 milhões de pessoas viviam com algum tipo de demência em 2021 e projeta que esse número se aproximará de 139 milhões em 2050. A Doença de Alzheimer responde, sozinha, por 60 a 70% desses casos. É uma das principais causas de morte nos países desenvolvidos e a condição que mais consome recursos de cuidadores no planeta. Em uma realidade demográfica em que a expectativa de vida cresce sem a contrapartida de um envelhecimento cerebral saudável, a pressão clínica e científica por intervenções efetivas é enorme.

Apesar disso, o arsenal terapêutico tradicional permanece, em larga medida, decepcionante. Donepezila, rivastigmina, galantamina e memantina existem há mais de 20 anos. Todas oferecem benefício modesto e temporário sobre a cognição e nenhuma modifica o curso da doença: o paciente continua declinando. Os anticorpos anti-amiloide — lecanemab e donanemab — trouxeram entusiasmo recente por atacarem a patologia amiloide diretamente, mas a realidade clínica é sóbria. O lecanemab reduz o declínio cognitivo em 27% no CDR-SB, o que corresponde a uma diferença de aproximadamente 0,5 ponto em uma escala de 18 pontos. O ganho é estatisticamente significativo e clinicamente questionável. Junto com ele vêm o risco de ARIA — 12,6% de edema cerebral e 17,3% de micro-hemorragias — e um custo de US$ 26 mil por ano de tratamento. O paradigma de atacar um único alvo molecular tem entregado, na prática, retornos decrescentes.

É nesse contexto que o paradigma multifatorial proposto por Dale Bredesen, conhecido como ReCODE, faz sentido conceitual: a neurodegeneração não é uma cascata linear que pode ser interrompida em um ponto, mas uma rede de cascatas interconectadas — estresse oxidativo, neuroinflamação crônica, disfunção mitocondrial, hipoperfusão cerebral, falha de autofagia, déficit de neurotrofinas, disrupção da barreira hematoencefálica. Tapar um "buraco no telhado" não interrompe a inundação. É necessária uma abordagem que atue simultaneamente em múltiplos alvos upstream. E é precisamente nesse espaço que o ozônio médico se inscreve: uma intervenção sistêmica de baixo custo e alto perfil de segurança, capaz de modular ao mesmo tempo a via Nrf2, a via NF-kB, a perfusão cerebral, a autofagia e o suporte neurotrófico — um conjunto de efeitos que praticamente nenhuma molécula isolada do arsenal convencional reproduz.

**Caso Clínico Introdutório**

A paciente é uma professora aposentada de 72 anos. Há aproximadamente 2 anos, a família começou a notar episódios de esquecimento progressivo: repetia perguntas, esquecia compromissos, perdia o fio de leituras longas. Veio à consulta acompanhada da filha. O exame mental detalhado mostra MoCA de 23 pontos — abaixo do ponto de corte habitual de 26, compatível com comprometimento cognitivo leve. O MMSE, mais grosseiro, permaneceu em 28 e poderia ter passado despercebido em uma triagem superficial. A avaliação inclui um item que muitos colegas ainda subestimam: a função olfatória. A paciente relata, espontaneamente, que "perdeu o gosto do café" — uma perda olfatória sutil, mas inequívoca quando questionada de forma dirigida. A ressonância mostra atrofia hipocampal leve, compatível com a faixa etária. Os marcadores liquóricos sugerem patologia amiloide incipiente. A pergunta clínica imediata é o que oferecer a essa paciente além das opções convencionais cujo benefício, como vimos, é marginal.

Este livro foi escrito para responder a quatro perguntas que esse cenário coloca. Primeira: como uma molécula que, em alta dose e por via inalatória, é classicamente neurotóxica pode, em baixa dose e por via sistêmica, ser neuroprotetora? Segunda: quais os mecanismos moleculares concretos pelos quais o ozônio médico atua no sistema nervoso central? Terceira: qual é hoje a evidência clínica em humanos — não apenas pré-clínica em modelos animais — para justificar seu uso? Quarta: como, na prática, integrar a ozonioterapia ao tratamento convencional, dentro de protocolos multimodais como o ReCODE, e com que protocolos, em que doses, em que frequências?

A resposta a essas quatro perguntas é construída ao longo dos capítulos seguintes. Os Capítulos 1 e 2 estabelecem os fundamentos: o paradoxo histórico-conceitual da molécula e a fisiopatologia multifatorial da neurodegeneração que justifica intervenções multimodais. Os Capítulos 3 a 5 detalham os mecanismos moleculares — Nrf2/Keap1, NF-kB e neuroinflamação, oxigenação cerebral, autofagia, BDNF. Os Capítulos 6 e 7 percorrem a evidência pré-clínica e clínica disponível. O Capítulo 8 traduz tudo isso em protocolos práticos, contraindicações e perfis de segurança. Os apêndices reúnem material de consulta rápida.

A premissa do texto é uma só: separar a ciência do ruído. Todas as afirmações feitas aqui derivam de estudos publicados em journals indexados, com PMIDs verificáveis. Onde a evidência é forte, ela aparece. Onde a evidência é fraca ou ainda inexistente, isso é dito explicitamente. A ozonioterapia não é uma panaceia, e este livro não é um manifesto. É um manual de estudo construído para que o leitor — médico, pesquisador ou profissional de saúde — possa decidir, com base em dados, qual o lugar racional dessa intervenção no cuidado do paciente com declínio cognitivo.

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# CAPÍTULO 1: O Paradoxo do Ozônio — Fundamentos Históricos e Conceituais

## 1.1 Da poluição atmosférica ao uso médico — uma molécula, dois destinos

O ozônio é, do ponto de vista químico, uma molécula formada por três átomos de oxigênio (O₃) ligados em ângulo, instável e fortemente oxidante. Sua descoberta remonta a 1840, quando o químico alemão Christian Friedrich Schönbein identificou o "odor característico" gerado durante a eletrólise da água e propôs o nome ozônio, derivado do grego *ozein* — "cheirar". A história clínica da molécula é mais recente: o uso médico documentado começou na 1ª Guerra Mundial, quando Werkmeister o utilizou no tratamento de feridas infectadas, gangrena gasosa e fístulas em soldados, aproveitando suas propriedades antimicrobianas pronunciadas. Durante o século XX, a prática se consolidou principalmente na Europa, com a chamada escola italiana — liderada por Velio Bocci — sistematizando, a partir dos anos 1990, os mecanismos bioquímicos e os protocolos da ozonioterapia médica moderna.

A apresentação contemporânea do tema, contudo, precisa partir de uma distinção que organiza tudo o que vem depois: o destino biológico do ozônio depende dramaticamente da via de administração e da dose. A mesma molécula, em dois contextos diferentes, comporta-se como dois agentes opostos.

Por um lado, há o ozônio inalatório. Este é, inequivocamente, um poluente urbano neurotóxico. A literatura experimental sobre o tema é consistente. Valdés-Fuentes e colaboradores publicaram em 2024, no *International Journal of Molecular Sciences*, um estudo com 72 ratos expostos a 0,25 ppm de ozônio inalado durante 4 horas por dia, por períodos de 7 a 90 dias. O achado foi claro: acúmulo progressivo de α-sinucleína na substância negra, no jejuno e no cólon dos animais expostos, acompanhado de aumento de NF-kB e IL-17 e neuroinflamação crônica. Em outras palavras, a inalação crônica de ozônio em concentrações compatíveis com poluição urbana mimetiza, em modelo animal, a patologia da Doença de Parkinson. Valdés-Fuentes M, Rodriguez-Martinez E, Rivas-Arancibia S (2024). *Int J Mol Sci*. PMID: 38791561.

Marin-Castañeda e colaboradores complementaram esse quadro no mesmo ano, na revista *Frontiers in Aging Neuroscience*, detalhando os mecanismos moleculares da neurotoxicidade inalatória crônica: excesso de espécies reativas de oxigênio, disfunção mitocondrial, peroxidação lipídica e neuroinflamação propagada pelo eixo pulmão-cérebro bidirecional, em que mediadores inflamatórios pulmonares atingem o sistema nervoso central via circulação sistêmica e via aferentes vagais. Marin-Castañeda LA et al. (2024). *Front Aging Neurosci*. PMID: 39529750. A mensagem clínica desses trabalhos é direta: respirar ozônio em níveis urbanos elevados, por períodos prolongados, é prejudicial ao cérebro.

Por outro lado, há o ozônio médico — o objeto deste livro. Trata-se da mesma molécula, mas com características operacionais radicalmente diferentes. É administrado por via sistêmica controlada (auto-hemoterapia maior, auto-hemoterapia menor, insuflação retal, salina ozonizada) e nunca por inalação direta, que permanece terminantemente contraindicada. As concentrações utilizadas situam-se em uma faixa estreita de 10 a 80 μg/mL, geradas por equipamentos certificados a partir exclusivamente de oxigênio medicinal — jamais ar atmosférico, cuja oxidação geraria óxidos de nitrogênio tóxicos. O ozônio médico é, portanto, definido tanto pela substância quanto pelo dispositivo, pela via, pela dose e pelo protocolo. Em condições controladas, opera por princípios biológicos opostos aos da inalação crônica. É essa dualidade — uma molécula, dois destinos — que dá nome ao paradoxo do ozônio e que estrutura toda a discussão subsequente sobre seus efeitos no sistema nervoso central.

## 1.2 Hormese — a ciência do estresse benéfico controlado

A reconciliação entre os dois destinos da molécula passa por um conceito biológico bem estabelecido: a hormese. Trata-se da resposta bifásica dose-resposta descrita por Edward Calabrese e Linda Baldwin a partir da década de 1990, segundo a qual muitos agentes exercem efeitos opostos em doses baixas e altas. Em doses elevadas, são tóxicos; em doses baixas, estimulam respostas adaptativas que aumentam a resistência do organismo ao próprio agente e a outros estressores. A curva característica é em "J" invertido ou em U invertido, dependendo da convenção do eixo, e tem sido documentada para uma extensa lista de agentes — radiação ionizante, exercício físico, jejum, certos fitoquímicos e, como veremos, o ozônio sistêmico.

O artigo seminal que articulou a hormese ao ozônio é o de Velio Bocci, publicado em 2009 no *Medical Research Reviews* sob o título *The ozone paradox*. Bocci V (2009). *Med Res Rev*, 29(4):646-682. PMID: 19260079. A formulação central é a de que o ozônio é simultaneamente um oxidante forte e uma droga médica, e que essa aparente contradição só se resolve quando se considera dose, via e contexto. Quando reage com fluidos biológicos em concentrações controladas, o ozônio gera mensageiros secundários — principalmente peróxido de hidrogênio (H₂O₂) em níveis muito baixos e produtos de oxidação lipídica como o 4-hidroxinonenal (4-HNE) — que são captados por células-alvo e ativam vias endógenas de defesa antioxidante. O estresse oxidativo gerado é leve, transitório e controlado. A resposta celular induzida é a ativação da via Nrf2/Keap1, com expressão de enzimas antioxidantes (SOD, catalase, GPx, HO-1, NQO1) e enzimas do sistema da glutationa. O cérebro, ao receber sangue ozonizado, não recebe ozônio diretamente — recebe um sinal hormético que treina o sistema antioxidante endógeno.

A analogia didática mais útil é a do exercício físico. O exercício moderado induz, no momento agudo, um aumento de espécies reativas de oxigênio e citocinas inflamatórias — paradoxalmente, esse mesmo sinal "negativo" é o que recruta, na fase de recuperação, a expressão de defesas antioxidantes e mitocondriais que tornam o organismo mais resistente. Sedentarismo e excesso de exercício são ambos deletérios; a faixa intermediária é benéfica. O ozônio médico opera pela mesma lógica: subterapêutico abaixo de uma faixa, terapêutico dentro dela, tóxico acima.

A delimitação dessa faixa terapêutica é, portanto, central na prática clínica. As diretrizes da ISCO3 e da WFOT situam a janela útil entre 10 e 80 μg/mL para administração sistêmica, com a recomendação prática de iniciar em torno de 20 μg/mL e titular gradualmente até 40-50 μg/mL em ciclos clínicos. Os limites superiores não são arbitrários: dados experimentais de Frosini e colaboradores, citados por Zhang X et al. (2025). *Med Gas Res*, 15(1):44-57. PMID: 39436168, mostraram em fatias cerebrais de rato submetidas a privação de oxigênio e glicose que concentrações de 80-120 μg/mL reverteram a lesão isquêmica, ao passo que 160 μg/mL agravaram a lesão. O efeito é dose-dependente e a janela é estreita. Acima dela, a capacidade de tamponamento antioxidante do plasma é excedida; surgem hemólise, peroxidação lipídica descontrolada e desnaturação proteica. Abaixo dela, não há sinal hormético suficiente para deflagrar a resposta adaptativa. A janela terapêutica não é uma sugestão — é uma condição operacional inegociável da ozonioterapia médica.

## 1.3 ISCO3, WFOT e a institucionalização da prática

A consolidação da ozonioterapia como prática médica baseada em padrões — e não como técnica de fronteira artesanal — passou pela criação de organismos internacionais responsáveis pela padronização de procedimentos, treinamento e diretrizes. Os dois principais são a ISCO3 (International Scientific Committee of Ozone Therapy) e a WFOT (World Federation of Ozone Therapy). A ISCO3 publicou a Declaração de Madrid sobre Ozonioterapia, atualmente em sua 3ª edição (2020), que reúne SOPs (procedimentos operacionais padronizados) detalhados por via de administração — auto-hemoterapia maior, auto-hemoterapia menor, insuflação retal, insuflação vaginal, aplicações tópicas, intradiscais, periarticulares e outras. A WFOT, por sua vez, mantém o *Review on Evidence Based Ozone Therapy*, documento de revisão periódica das evidências por indicação clínica.

A regulamentação varia entre países. Itália, Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba, China e Rússia reconhecem e regulamentam a ozonioterapia como prática médica, com critérios definidos para formação, registro de equipamentos e indicações. Os Estados Unidos, em sentido oposto, mantêm a posição da FDA que considera o ozônio um gás tóxico sem uso médico aprovado, o que efetivamente proíbe a prática em território americano. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, pela Resolução 2.499 de 2022, reconheceu a ozonioterapia como ato médico, definindo condicionantes para sua prática, exigindo formação específica e restringindo o uso a indicações com respaldo científico documentado.

Do ponto de vista operacional, três pontos resumem o que distingue a prática institucionalizada da prática improvisada. Primeiro, o gerador. O equipamento deve ser certificado, com calibração regular e capacidade de gerar concentrações estáveis dentro da janela terapêutica; geradores artesanais ou não calibrados são incompatíveis com a prática responsável. Segundo, o gás de origem. O ozônio médico deve ser gerado exclusivamente a partir de oxigênio medicinal — nunca ar atmosférico — porque a presença de nitrogênio gera óxidos de nitrogênio (NOx) durante a descarga elétrica, com efeitos tóxicos pulmonares e sistêmicos. Terceiro, os materiais de contato. O ozônio reage com a maioria dos plásticos comuns; recipientes, seringas e cateteres devem ser de materiais resistentes ao ozônio (tipicamente vidro borossilicato ou plásticos específicos como o polipropileno O₃-resistente), e o sistema de coleta e reinfusão deve ser fechado e estéril. Quando essas condições são respeitadas, a ozonioterapia opera dentro de parâmetros reprodutíveis. Quando não são, a discussão sobre eficácia perde sentido — porque o que está sendo administrado deixa de ser ozônio médico no sentido técnico do termo.

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# CAPÍTULO 2: Por Que o Cérebro Falha — Fisiopatologia Multifatorial da Neurodegeneração

## 2.1 Os múltiplos buracos no telhado: o paradigma multifatorial

A formulação mais didática do paradigma multifatorial da neurodegeneração foi proposta por Dale Bredesen no contexto do protocolo ReCODE. A analogia é a de um telhado com 36 buracos por onde a água entra: tapar um único buraco — por mais bem-feita que seja a vedação — não resolve a inundação. A casa continua sendo invadida pelos demais. A medicina convencional, ao longo das últimas três décadas, investiu maciçamente em encontrar e tapar "o buraco" — a hipótese amiloide do Alzheimer é o exemplo paradigmático — e obteve resultados clinicamente decepcionantes. A razão estrutural disso, segundo o paradigma multifatorial, é simples: a Doença de Alzheimer e as demais neurodegenerações não são causadas por um único mecanismo, mas pela interação de várias cascatas patológicas que se reforçam mutuamente em ciclos viciosos.

Os pilares fisiopatológicos centrais reconhecidos hoje incluem ao menos seis processos interligados. O primeiro é o estresse oxidativo e a disfunção mitocondrial. O cérebro é particularmente vulnerável: consome aproximadamente 20% do oxigênio do corpo em repouso, é rico em lipídeos poli-insaturados altamente oxidáveis e contém ferro em concentrações suficientes para catalisar reações de Fenton. Quando a produção de espécies reativas de oxigênio excede a capacidade antioxidante endógena, há dano direto a proteínas, lipídeos e DNA, com comprometimento do funcionamento da cadeia respiratória mitocondrial, queda na produção de ATP e ativação de programas de morte celular regulada.

O segundo é a neuroinflamação crônica. A micróglia — célula imune residente do sistema nervoso central — assume um fenótipo persistentemente ativado em torno de placas amiloides, agregados de tau e lesões vasculares. A ativação contínua do fator de transcrição NF-kB e do inflamassoma NLRP3 perpetua a produção de IL-1β, IL-6, TNF-α e outras citocinas, criando um ambiente bioquímico tóxico para os neurônios vizinhos. Essa neuroinflamação não é um epifenômeno: estudos genéticos identificaram polimorfismos em genes imunes (TREM2, CD33, ApoE) como fatores de risco causais para Alzheimer.

O terceiro é a hipoperfusão cerebral. Estudos de fMRI e PET mostram que reduções de fluxo sanguíneo cerebral em territórios específicos — particularmente no cíngulo posterior, precuneus e córtex parietal — precedem em anos o aparecimento de sintomas cognitivos clínicos. A hipoperfusão crônica produz hipóxia tecidual sutil, agrava o estresse oxidativo e compromete o transporte de glicose e a remoção de metabólitos.

O quarto é a falha de autofagia. A autofagia — sistema de degradação lisossomal de proteínas e organelas defeituosas — é a principal via pela qual os neurônios eliminam agregados de Aβ, tau hiperfosforilada e α-sinucleína. No envelhecimento e nas neurodegenerações, esse sistema se torna progressivamente ineficiente, levando ao acúmulo de proteínas patológicas e ao colapso da homeostase proteica neuronal.

O quinto é o déficit neurotrófico. O BDNF (brain-derived neurotrophic factor) é essencial para plasticidade sináptica, sobrevivência neuronal, aprendizado e memória. Seus níveis caem com o envelhecimento, com o sedentarismo, com a depressão e, marcadamente, na Doença de Alzheimer. A queda crônica de BDNF reduz a capacidade de regeneração sináptica e de adaptação a estressores.

O sexto é a disrupção da barreira hematoencefálica. A BHE separa o sistema nervoso central do compartimento sistêmico, controlando rigorosamente o que entra e o que sai. Nas neurodegenerações, ela se torna permeável a moléculas e células que normalmente seriam excluídas, permitindo infiltração de células imunes periféricas, deposição de proteínas séricas no parênquima cerebral e amplificação da neuroinflamação.

A característica que define o paradigma multifatorial não é apenas a coexistência desses processos, mas sua interconexão em ciclos viciosos. O estresse oxidativo ativa NF-kB, que perpetua a neuroinflamação, que recruta mais micróglia, que aumenta o estresse oxidativo. A hipoperfusão agrava a hipóxia, que disfunciona a mitocôndria, que aumenta o estresse oxidativo. A falha de autofagia permite acúmulo de Aβ, que ativa a micróglia, que produz citocinas, que comprometem ainda mais a autofagia. Esses circuitos de retroalimentação positiva — uma vez iniciados — tornam o sistema cada vez mais difícil de desbloquear pela atuação em um único nó. Daí a frustração reiterada das monoterapias de alvo único.

## 2.2 O fracasso clínico do paradigma mono-alvo

A análise crítica das classes terapêuticas atualmente disponíveis ilustra com precisão esse fracasso. Os inibidores da colinesterase — donepezila, rivastigmina e galantamina — atuam aumentando a disponibilidade de acetilcolina na fenda sináptica, sob a hipótese colinérgica formulada nos anos 1970. O benefício clínico é real, mas modesto: ganhos de 1 a 3 pontos no ADAS-cog em ensaios de 6 meses, sem modificação do curso da doença a médio prazo, e com perfil de efeitos adversos gastrointestinais frequentes (náusea, vômito, diarreia), bradicardia e insônia. Após 12 a 18 meses, o paciente típico retorna à trajetória de declínio que teria sem o medicamento. A memantina — antagonista não competitivo do receptor NMDA — atua regulando a excitotoxicidade glutamatérgica em estágios moderado-grave da doença, com benefício adicional pequeno e perfil de tolerabilidade aceitável, mas, novamente, sem modificação do curso.

Os anticorpos anti-amiloide — lecanemab e donanemab — representam a tentativa mais recente e ambiciosa de atacar a patologia central da Doença de Alzheimer. Ambos demonstraram, em ensaios pivotais, redução estatisticamente significativa da carga amiloide medida por PET e desaceleração do declínio cognitivo. A leitura clínica desses dados, entretanto, exige sobriedade. O lecanemab reduziu o declínio no CDR-SB em 27% ao longo de 18 meses, o que corresponde a uma diferença absoluta de aproximadamente 0,5 ponto em uma escala que varia de 0 a 18. Tradução prática: a diferença entre tratado e placebo é detectável estatisticamente, mas dificilmente perceptível para a família ou para o próprio paciente em sua rotina. O preço dessa diferença marginal inclui ARIA-E (edema cerebral) em 12,6% dos pacientes tratados, ARIA-H (micro-hemorragias) em 17,3%, necessidade de monitoramento intensivo com ressonância magnética seriada e um custo de US$ 26 mil por ano de tratamento — sem contar os custos da infraestrutura de infusão e monitoramento.

A pergunta inevitável é por que, depois de décadas de investimento concentrado, o ganho clínico é tão marginal. A resposta, do ponto de vista do paradigma multifatorial, é que atacar um único alvo — a placa amiloide — não basta quando a doença é uma rede de cascatas conectadas. Mesmo que a placa seja removida, a neuroinflamação crônica continua, a disfunção mitocondrial continua, a hipoperfusão continua, o déficit neurotrófico continua. O paciente segue declinando porque os demais circuitos viciosos seguem rodando. A justificativa conceitual para buscar intervenções upstream multimodais — que atuem simultaneamente em vários pontos da rede patológica — vem precisamente desse impasse. Não se trata de abandonar os tratamentos disponíveis, mas de reconhecer seus limites e de procurar abordagens complementares que ataquem o problema na sua arquitetura multifatorial.

## 2.3 O cérebro como alvo terapêutico desafiador

Acima de tudo, o cérebro é um órgão particularmente difícil de tratar. Há ao menos quatro particularidades anatomofisiológicas que tornam o desafio farmacológico maior do que em qualquer outro sistema. A primeira é a barreira hematoencefálica. Ela restringe drasticamente a entrada de moléculas hidrofílicas, de alto peso molecular ou polares — características de muitos fármacos potencialmente úteis. Mesmo moléculas que cruzam a BHE com eficiência podem ser bombeadas de volta por transportadores ativos (P-glicoproteína, BCRP), reduzindo a biodisponibilidade efetiva no tecido. Os anticorpos terapêuticos atravessam a BHE apenas em proporções ínfimas — algo entre 0,1 e 0,5% da dose plasmática chega ao parênquima cerebral —, o que explica em parte a necessidade de doses repetidas elevadas e os custos altos das terapias com biológicos.

A segunda particularidade é a prevalência de hipoxia tecidual sutil. A perfusão cerebral alterada precede o declínio cognitivo em pacientes com CCL e Alzheimer, conforme demonstrado em estudos de fMRI e PET. Em territórios hipoperfundidos, a entrega de oxigênio e de substratos energéticos cai abaixo do ideal, comprometendo o funcionamento neuronal antes mesmo da morte celular. Qualquer intervenção que melhore a microcirculação cerebral e a entrega de oxigênio aos tecidos hipóxicos atua, portanto, sobre um substrato fisiopatológico documentado.

A terceira é a capacidade limitada de regeneração. Diferentemente da maioria dos tecidos, o sistema nervoso central tem capacidade neurogênica restrita a áreas específicas — principalmente o giro denteado do hipocampo e a zona subventricular —, e essa neurogênese declina com o envelhecimento. A perda neuronal, em larga medida, é definitiva. Intervenções terapêuticas precisam, então, atuar não tanto na substituição quanto na preservação dos neurônios vulneráveis ainda viáveis. Intervir mais cedo, antes da morte celular estabelecida, é um imperativo estratégico.

A quarta particularidade é a vulnerabilidade ao estresse oxidativo. Como mencionado, o cérebro combina alto metabolismo oxidativo, alta concentração de ferro, alta proporção de lipídeos poli-insaturados e capacidade antioxidante endógena relativamente modesta em comparação com o fígado, por exemplo. Essa combinação o torna o órgão biologicamente mais sensível ao estresse oxidativo crônico. Qualquer intervenção que reforce as defesas antioxidantes endógenas — em vez de fornecer antioxidantes exógenos que não atravessam a BHE ou que rapidamente saturam — atua sobre uma vulnerabilidade estrutural do órgão.

A confluência dessas quatro particularidades — restrição de acesso pela BHE, hipoperfusão prevalente, capacidade regenerativa limitada e vulnerabilidade oxidativa — explica por que terapias sistêmicas que melhoram a perfusão, preservam a integridade da BHE e ativam defesas endógenas antioxidantes têm, conceitualmente, potencial superior ao das estratégias que tentam empurrar fármacos exógenos contra esses obstáculos. É exatamente nessa interseção que se inscreve a tese central deste livro: o ozônio médico, administrado por via sistêmica em doses controladas, atua simultaneamente em vários desses pontos. Ativa a via Nrf2 com reforço das defesas antioxidantes endógenas, suprime a neuroinflamação crônica via inibição de NF-kB e do inflamassoma NLRP3, melhora a oxigenação tecidual via aumento de 2,3-DPG e liberação de vasodilatadores locais, reativa a autofagia via eixo p62-Keap1-Nrf2 e normaliza o BDNF plasmático em contextos clínicos selecionados. Os Capítulos 3 a 5 detalham cada um desses mecanismos com a evidência molecular disponível; os Capítulos 6 e 7 percorrem as evidências pré-clínicas em modelos animais e os ensaios clínicos em humanos publicados até 2026; o Capítulo 8 traduz tudo isso em protocolos operacionais, perfis de segurança e contraindicações.

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# CAPÍTULO 3: Mecanismo Molecular I — A Via Nrf2/Keap1 como Centro Regulador

## 3.1 Anatomia molecular da via Nrf2/Keap1

Para entender por que o ozônio médico em baixa dose se comporta como um neuroprotetor — e não como o agente tóxico que costumamos associar ao ozônio atmosférico — é preciso compreender com algum detalhe a via molecular que sustenta praticamente todos os efeitos benéficos descritos na literatura: o eixo Nrf2/Keap1. Esta é a porta de entrada do mecanismo, e tudo o que vem depois (modulação da neuroinflamação, restauração da autofagia, neurotrofismo, oxigenação tecidual) depende, direta ou indiretamente, dela.

O Nrf2 (Nuclear factor erythroid 2-related factor 2) é um fator de transcrição que funciona como o regulador-mestre da resposta antioxidante celular. Em condições basais, o Nrf2 não está livre no citoplasma para fazer seu trabalho. Ele está sequestrado por uma proteína chamada Keap1 (Kelch-like ECH-associated protein 1), que se comporta como uma âncora citoplasmática e, ao mesmo tempo, como um adaptador para o complexo Cullin 3 (Cul3) — uma E3 ubiquitina ligase que marca o Nrf2 para degradação contínua pelo proteassomo. Em outras palavras, em uma célula em repouso, o Nrf2 é produzido, é capturado pela Keap1 e é degradado, repetidamente, num ciclo de turnover muito rápido. Sua meia-vida basal é de cerca de 20 minutos. O sistema está, portanto, "armado, mas freado".

O freio é, ele próprio, um sensor químico. A Keap1 contém um número incomum de resíduos de cisteína — cerca de 27 — e três deles ocupam um papel especial: Cys151, Cys273 e Cys288. Essas cisteínas funcionam como interruptores redox. Quando algum agente eletrofílico ou pró-oxidante de baixa intensidade modifica covalentemente essas cisteínas — por exemplo, formando aductos com o grupo tiol —, a Keap1 muda de conformação e perde a capacidade de entregar o Nrf2 ao proteassomo. O resultado é que o Nrf2 recém-sintetizado deixa de ser degradado, acumula-se no citoplasma e transloca para o núcleo.

No núcleo, o Nrf2 forma um heterodímero com proteínas da família small Maf (sMaf) e se liga a uma sequência específica do DNA chamada ARE (Antioxidant Response Element). A presença do Nrf2 ligado ao ARE recruta a maquinaria de transcrição e ativa um programa coordenado de dezenas de genes citoprotetores. Entre os mais relevantes para a neuroproteção estão:

- **SOD1 e SOD2 (superóxido dismutase citoplasmática e mitocondrial):** convertem o ânion superóxido em peróxido de hidrogênio, neutralizando o radical livre mais reativo gerado pela respiração celular.
- **Catalase:** degrada o peróxido de hidrogênio em água e oxigênio, completando o trabalho iniciado pela SOD.
- **Glutationa peroxidase (GPx):** usa glutationa reduzida (GSH) para neutralizar peróxidos lipídicos e H₂O₂, sendo essencial em membranas neuronais ricas em ácidos graxos poli-insaturados.
- **HO-1 (heme oxigenase-1):** degrada heme livre e gera CO e bilirrubina, dois antioxidantes endógenos potentes e moduladores anti-inflamatórios.
- **NQO1 (NAD(P)H quinona oxidorredutase 1):** protege contra quinonas reativas e desempenha papel particularmente relevante na proteção de neurônios dopaminérgicos da substância negra.
- **Sistema glutationa (GSH/GST):** GSH é o principal tampão redox intracelular, e as enzimas GST (glutationa S-transferases) catalisam sua conjugação com xenobióticos e produtos endógenos da peroxidação.

Esse programa transcricional não é apenas uma resposta de emergência. Ele é uma reprogramação metabólica: a célula passa a operar com maior capacidade antioxidante, melhor tamponamento redox, e maior resistência a estresse subsequente. Quem estuda hormese reconhece aqui o substrato molecular do conceito: uma exposição leve e controlada a um estressor oxidativo deixa a célula mais bem preparada para enfrentar estresses futuros, inclusive aqueles que, sem esse pré-condicionamento, seriam letais.

## 3.2 Como o ozônio ativa o Nrf2 — H₂O₂ e 4-HNE como mensageiros

Aqui está um dos pontos mais mal compreendidos do mecanismo do ozônio médico: o ozônio em si não chega ao cérebro. Sua meia-vida em tecidos biológicos é da ordem de menos de um minuto, e ao entrar em contato com o sangue ele reage em milissegundos com biomoléculas plasmáticas — ácidos graxos poli-insaturados, antioxidantes hidrossolúveis, proteínas. O que ativa o Nrf2 não é o ozônio diretamente, são os produtos dessas reações: mensageiros secundários gerados em quantidades cuidadosamente limitadas.

Os dois mensageiros mais relevantes são o peróxido de hidrogênio (H₂O₂) em concentrações muito baixas e os produtos de oxidação lipídica (LOPs, lipid oxidation products), principalmente o 4-hidroxinonenal (4-HNE). O H₂O₂ é uma espécie reativa bem conhecida, mas em concentrações nanomolares a micromolares funciona como uma molécula de sinalização — não como um agente destrutivo. Ele oxida tióis específicos de proteínas reguladoras, e a Keap1 está entre seus alvos preferenciais por causa da reatividade incomum de seus resíduos de cisteína. O 4-HNE, por sua vez, é um aldeído eletrofílico derivado da peroxidação de ácidos graxos ômega-6 (especialmente ácido araquidônico e ácido linoleico) e forma aductos de Michael com as cisteínas Cys151 e Cys273 da Keap1.

Em outras palavras, o ozônio, ao entrar em contato com o sangue, gera uma onda transitória e finamente dosada de H₂O₂ e 4-HNE. Essa onda atinge a Keap1, oxida as cisteínas sensoras, libera o Nrf2, e dispara toda a cascata transcricional descrita acima. O efeito sistêmico é uma elevação coordenada das defesas antioxidantes endógenas, que se propaga aos tecidos por meio da circulação e do tráfego intercelular de mensageiros.

Esse modelo de sinalização redox tem duas implicações práticas importantes. A primeira é que a janela de dose importa muitíssimo. Se a quantidade de ozônio for muito baixa, os mensageiros secundários ficam abaixo do limiar de modificação da Keap1 e o Nrf2 não é ativado — efeito subterapêutico. Se a quantidade for muito alta, o sistema antioxidante do plasma é sobrepujado, os mensageiros tornam-se agentes citotóxicos diretos, e o que era sinalização passa a ser dano. Por isso a janela terapêutica recomendada pela ISCO3 e pela WFOT — 10 a 80 microgramas por mililitro, com início recomendado em torno de 20 e titulação até 40 a 50 — não é um capricho. Está ancorada na cinética da reação do ozônio com biomoléculas plasmáticas e no limite de tamponamento antioxidante do sangue humano.

A segunda implicação é que o ozônio médico não precisa atravessar a barreira hematoencefálica para proteger o cérebro. Os mensageiros redox e as enzimas antioxidantes ativadas pela via Nrf2 atuam tanto no compartimento periférico quanto no SNC, e o aumento sistêmico do tônus antioxidante reduz a carga oxidativa que chega ao tecido cerebral. Soma-se a isso o fato de que o ozônio em baixa dose, como veremos no Capítulo 4, preserva a integridade da própria BHE, o que é precondição indispensável para qualquer proteção do tecido neural envelhecido.

## 3.3 Evidência meta-analítica — Scassellati 2020 como pedra angular

Toda essa descrição mecanística, se ficasse no nível pré-clínico, seria apenas mais uma teoria bem desenhada. O que confere à via Nrf2/Keap1 o status de mecanismo central da ozonioterapia médica é a robustez quantitativa dos dados acumulados. A síntese mais sólida que temos é a meta-análise de Scassellati e colaboradores, publicada em 2020 no *Ageing Research Reviews*.

Scassellati C, Galoforo AC, Bonvicini C, Esposito C, Ricevuti G (2020). Ozone: a natural bioactive molecule with antioxidant property as potential new strategy in aging and in neurodegenerative disorders. *Ageing Research Reviews*, 63:101138. PMID: 32810649. DOI: 10.1016/j.arr.2020.101138.

Esta meta-análise compilou mais de 65 achados experimentais e clínicos relativos à modulação do sistema antioxidante e do sistema vitagênico pelo ozônio médico. Os resultados quantitativos foram inequívocos:

- **Sistema antioxidante-Nrf2:** OR = 1,71 (IC 95%: 1,17-2,25; p<0,00001). Cinco zeros depois da vírgula no valor de p. O ozônio modula significativamente esse sistema, com magnitude de efeito moderada e altíssima precisão estatística.
- **Sistema vitagene-Nrf2:** OR = 1,80 (IC 95%: 1,05-2,55; p<0,00001). O mesmo nível de significância para o subsistema vitagênico, que inclui HO-1, Hsp70, sirtuínas e outros nós regulatórios da resposta de estresse celular.

O significado desses números merece comentário. Em meta-análises de mecanismos farmacológicos, é incomum encontrar p-valores tão pequenos com tamanhos de efeito tão consistentes entre estudos heterogêneos — desenhos in vitro, modelos animais variados, contextos clínicos diversos. A robustez do achado sugere que estamos diante de uma assinatura mecanística verdadeira, não de um artefato de publicação ou de um efeito específico de um modelo.

Outro ponto que reforça a solidez do achado: a meta-análise documentou também a regulação NEGATIVA das vias pró-inflamatórias na mesma direção esperada pela teoria. O eixo NF-κB/NLRP3/TLR4 mostrou ORs de -5,25 para mRNA e -4,85 para proteína. São tamanhos de efeito massivos — algo raro em farmacologia. Voltaremos a esses números no Capítulo 4. Por enquanto, basta reter que o ozônio em baixa dose não só liga o programa antioxidante via Nrf2 como desliga, em magnitude correspondente, o programa pró-inflamatório. Essa simetria é coerente com o que sabemos do crosstalk entre as duas vias e dificilmente seria reproduzida por puro acaso.

A pedra angular conceitual da compreensão do Nrf2 na ozonioterapia é o trabalho de Galié e colaboradores, frequentemente citado em paralelo com a meta-análise: Galié M, Covi V, Tabaracci G, Malatesta M (2019). The Role of Nrf2 in the Antioxidant Cellular Response to Medical Ozone Exposure. *International Journal of Molecular Sciences*, 20(16):4009. DOI: 10.3390/ijms20164009. Esse artigo, com mais de 120 citações na literatura subsequente, organiza o mapa mecanístico que descrevemos acima — desde a geração de mensageiros secundários até a translocação nuclear do Nrf2 e a ativação dos elementos ARE — e estabelece o vocabulário comum hoje utilizado pela comunidade científica.

## 3.4 Confirmação translacional em humanos — Cheng 2025

Até aqui, falamos de meta-análise sobre estudos majoritariamente experimentais. A pergunta legítima é: esse mecanismo molecular se observa, in vivo, em seres humanos tratados? A resposta veio em 2025 com o ECR de Cheng e colaboradores.

Cheng H, Lu R, Du J, Zhao X, Zhuang Z (2025). Ozone autohemotherapy for acute ischemic stroke. *Frontiers in Medicine*, 12:1595568. PMID: 40786087. DOI: 10.3389/fmed.2025.1595568.

Este foi um ensaio clínico randomizado de três braços (controle, placebo com oxigênio puro, ozonioterapia por auto-hemoterapia maior) com 62 pacientes com AVC isquêmico agudo. O protocolo de tratamento — 100 mL de sangue autólogo misturado com 100 mL de mistura O₂-O₃ a 45 microgramas por mL, reinfundido IV, uma vez ao dia por 5 dias consecutivos — gerou, no grupo ozônio, elevação significativa dos níveis séricos de Nrf2 e de HIF-1 em comparação com os grupos controle e placebo (p<0,05 para ambos). Houve, em paralelo, aumento das enzimas antioxidantes SOD e GSH-Px e queda do MDA (malondialdeído, marcador clássico de peroxidação lipídica).

Esse dado tem peso desproporcional ao tamanho amostral pequeno por uma razão simples: ele fecha o ciclo translacional. Não é mais uma inferência baseada em culturas celulares ou em homogenatos teciduais de ratos. É a confirmação, in vivo, em sangue humano de pacientes tratados com protocolo padronizado, de que o ozônio médico ativa exatamente a via molecular que a teoria predisse. Quando combinada com a meta-análise de Scassellati 2020, a evidência mecanística da ativação do Nrf2 pela ozonioterapia médica deixa de ser uma hipótese e passa a ser um achado consolidado da literatura.

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# CAPÍTULO 4: Mecanismo Molecular II — Modulação da Neuroinflamação

## 4.1 NF-κB e o inflamassoma NLRP3 — os motores da neuroinflamação crônica

Se a via Nrf2/Keap1 é o "freio antioxidante" da célula, o eixo NF-κB/NLRP3 é o "acelerador inflamatório". E nas doenças neurodegenerativas — Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica, demência vascular — esse acelerador está, com poucas exceções, preso no chão. A micróglia ativada cronicamente é o coração do problema. Ela libera citocinas pró-inflamatórias de forma contínua, atrai células imunes periféricas, perpetua um microambiente tóxico para os neurônios, e funciona como um loop de retroalimentação positiva: quanto mais inflamação, mais ativação microglial; quanto mais ativação microglial, mais inflamação.

O NF-κB (nuclear factor kappa-light-chain-enhancer of activated B cells) é um fator de transcrição que, quando ativado, dispara a expressão de dezenas de genes pró-inflamatórios — TNF-α, IL-6, IL-1β, COX-2, iNOS, moléculas de adesão endotelial. Em condições normais, o NF-κB é mantido inativo no citoplasma pela proteína IκB. Estímulos como DAMPs (damage-associated molecular patterns, incluindo β-amiloide oligomérico), PAMPs (pathogen-associated molecular patterns), ROS, TNF-α e LPS ativam o complexo IKK, que fosforila IκB e a marca para degradação. O NF-κB livre transloca para o núcleo e ativa o programa pró-inflamatório.

O inflamassoma NLRP3 é um complexo multiproteico que, quando montado em resposta a um segundo estímulo (sinal 2 — ROS mitocondrial, K+ efflux, agregados proteicos), ativa a caspase-1, que por sua vez cliva a pró-IL-1β e a pró-IL-18 em suas formas maduras e biologicamente ativas. O β-amiloide oligomérico, fibrilas de α-sinucleína e tau hiperfosforilada são todos sinais 2 reconhecidos pelo NLRP3 — daí a centralidade desse inflamassoma na patogenia das proteinopatias neurodegenerativas.

O receptor TLR4 (Toll-like receptor 4), presente em micróglia e em macrófagos periféricos, reconhece tanto LPS bacteriano quanto DAMPs endógenos, incluindo o próprio β-amiloide. Sua ativação dispara cascatas via MyD88/TIR-domain que convergem para ativação de NF-κB e priming do NLRP3 — o "sinal 1" do inflamassoma. O eixo TLR4 → NF-κB → NLRP3 é, portanto, um dos motores principais da neuroinflamação crônica observada no Alzheimer e no Parkinson.

As citocinas resultantes — IL-1β, IL-6 e TNF-α em primeiro lugar — estão consistentemente elevadas no líquor e no soro de pacientes com Alzheimer, e correlacionam-se com a velocidade de declínio cognitivo. Não são apenas marcadores. São efetoras: induzem morte neuronal, aumentam a permeabilidade da BHE, promovem hiperfosforilação de tau e aceleram a agregação amiloide. Quem consegue desligar esse eixo, em teoria, está intervindo na engrenagem central da doença.

## 4.2 Como o ozônio em baixa dose suprime essas vias

Aqui é onde o paradoxo do ozônio se mostra em sua forma mais clara. O ozônio em alta dose, em exposição crônica por inalação, ativa o NF-κB e amplifica a neuroinflamação — é o efeito documentado nos modelos de poluição atmosférica e em estudos como o de Valdés-Fuentes 2024, em que ratos expostos a 0,25 ppm de ozônio inalado por períodos prolongados desenvolveram acúmulo de α-sinucleína, elevação de NF-κB e de IL-17, replicando aspectos da patologia parkinsoniana. O ozônio em baixa dose, administrado por via sistêmica, faz exatamente o oposto: inibe o NF-κB e desliga o inflamassoma NLRP3. A mesma molécula, doses opostas, efeitos opostos. A janela terapêutica entre 10 e 80 microgramas por mL é o que separa um polo do outro.

O mecanismo pelo qual o ozônio em baixa dose suprime a via inflamatória passa por três pontos articulados:

Primeiro, o crosstalk Nrf2-NF-κB. Existe uma antagonismo bem documentado entre essas duas vias: a ativação do Nrf2 inibe a translocação nuclear do NF-κB, reduz a expressão de IκB-degradante e diminui a produção de ROS — que são, eles próprios, sinais ativadores de NF-κB. Quando o ozônio ativa o Nrf2, ele indiretamente "desliga" o NF-κB por essa via de inibição cruzada.

Segundo, a inativação do sinal TLR4. O ozônio em baixa dose interfere no signaling do domínio TIR, reduzindo a montagem do complexo MyD88 e a propagação do sinal a jusante. Estudos in vitro mostram que pré-tratamento com ozônio reduz a resposta de macrófagos a LPS — um marcador clássico da capacidade de modular o TLR4.

Terceiro, a inibição do assembly do NLRP3. A ativação do NLRP3 depende fortemente de ROS mitocondrial como sinal 2. Como o ozônio em baixa dose ativa o Nrf2 e, por meio dele, melhora a função e a biogênese mitocondrial, o ROS mitocondrial cai, e o NLRP3 perde seu gatilho. O resultado é menos clivagem de IL-1β em sua forma madura, menos piroptose, menos amplificação inflamatória.

A magnitude desse efeito é o aspecto mais impressionante. A meta-análise de Scassellati 2020 quantificou a regulação negativa do eixo NF-κB/NLRP3/TLR4 e encontrou:

- **mRNA NF-κB/NLRP3/TLR4:** OR = -5,25
- **Proteína:** OR = -4,85

Esses são tamanhos de efeito massivos, raros em farmacologia. Para comparação: os efeitos anti-inflamatórios de inibidores específicos do NLRP3, em desenvolvimento clínico atual, costumam apresentar ORs entre -1,2 e -2,0 em sistemas comparáveis. O ozônio médico, atuando upstream do NLRP3, multimodal, atinge magnitudes 2 a 4 vezes maiores na meta-análise — provavelmente porque não está bloqueando apenas um ponto da cascata, mas atenuando-a em múltiplos níveis simultaneamente.

A inversão de sentido do paradoxo é importante de fixar para a clínica: alta dose / inalação crônica → NF-κB para cima, neuroinflamação para cima, neurodegeneração progressiva; baixa dose / sistêmica controlada → NF-κB para baixo, neuroinflamação para baixo, neuroproteção. É a mesma molécula. O que muda é a via, a dose e a duração.

## 4.3 Confirmação experimental recente — Demir 2026

A evidência experimental mais sofisticada da supressão da neuroinflamação pelo ozônio médico veio com o estudo de Demir e colaboradores, publicado em 2026 no *Neurochemical Research*.

Demir H, Demirtas C, Yildirim H, et al. (2026). Ozone Treatment Attenuates Neuroinflammation in Post-Traumatic Epilepsy. *Neurochemical Research*. PMID: 41718951.

O desenho do estudo foi um modelo de epilepsia pós-traumática em ratos — um contexto particularmente exigente, porque combina lesão cerebral aguda, neuroinflamação subaguda e disfunção cognitiva crônica em um único modelo. Os animais foram alocados em 3 grupos: controle (sham), epilepsia pós-traumática sem tratamento, e epilepsia pós-traumática tratada com ozônio intraperitoneal a 0,7 mg/kg por 3 dias consecutivos.

Os resultados, no grupo tratado com ozônio, foram convergentes e contundentes:

- **Citocinas pró-inflamatórias:** redução significativa de IL-1β, IL-6 e TNF-α — exatamente as três citocinas-âncora da neuroinflamação que descrevemos acima como elevadas no líquor de pacientes com Alzheimer.
- **SUR1 e TRPM4:** queda significativa desses dois canais, envolvidos em edema cerebral e morte neuronal por necroptose. A redução desses marcadores sugere proteção contra o componente vascular-edematoso da lesão pós-traumática.
- **Status oxidativo:** restauração do TAS (total antioxidant status, marcador da capacidade antioxidante total) e queda do TOS (total oxidative status) e do OSI (oxidative stress index, razão TOS/TAS). O ozônio reequilibrou o balanço redox em direção à defesa.
- **Cognição (labirinto radial):** os animais tratados cometeram significativamente menos erros — desfecho clássico de melhora da memória de trabalho espacial.
- **Comportamento (labirinto em cruz elevado):** maior exploração dos braços abertos, indicando redução do componente ansioso.
- **Imobilidade (teste de natação forçada):** redução da imobilidade no grupo tratado, sugerindo efeito antidepressivo associado.

Importa notar que o estudo cobre, num único experimento, a tríade que define a relevância clínica de um candidato a neuroprotetor: modulação dos mediadores moleculares (citocinas, ROS), proteção contra mecanismos celulares de morte (SUR1, TRPM4) e melhora funcional comportamental e cognitiva. Os três níveis se alinham, e a magnitude dos efeitos é consistente com o que a meta-análise de Scassellati havia projetado a partir de dados mais antigos. Em 2026, o quadro experimental da supressão da neuroinflamação pela ozonioterapia médica está, portanto, consolidado.

## 4.4 Barreira hematoencefálica — proteção pela ozonioterapia médica

Um aspecto frequentemente subestimado da neuroinflamação crônica é seu impacto sobre a barreira hematoencefálica. A BHE é uma estrutura altamente especializada formada por células endoteliais com junções íntimas (tight junctions), astrócitos, pericitos e a lâmina basal. Sua função é controlar com precisão o que entra e o que sai do compartimento cerebral. Em doenças neurodegenerativas, a BHE perde essa seletividade: as junções íntimas se desorganizam, células imunes periféricas infiltram o parênquima, proteínas plasmáticas (incluindo fibrinogênio) extravasam, e o microambiente cerebral é progressivamente contaminado por sinais pró-inflamatórios sistêmicos.

O ozônio médico em baixas doses protege a BHE por vários mecanismos articulados. Reduz os marcadores inflamatórios crônicos sistêmicos, diminuindo o estímulo externo sobre o endotélio cerebral. Diminui ROS no plasma, reduzindo o estresse oxidativo direto sobre as células endoteliais. Ativa o Nrf2 nas próprias células endoteliais, induzindo HO-1, NQO1 e enzimas de fase II que fortalecem a defesa local. E reduz a infiltração de leucócitos periféricos, ao baixar a expressão de moléculas de adesão (ICAM-1, VCAM-1, E-selectina) que normalmente recrutam células imunes em estados pró-inflamatórios.

O contraste com o ozônio inalado em alta dose é, mais uma vez, instrutivo. A exposição crônica a ozônio atmosférico em concentrações urbanas elevadas desorganiza a BHE — abre as tight junctions, aumenta a permeabilidade ao corante de Evans (marcador clássico de quebra da BHE) e facilita a entrada de fatores pró-inflamatórios sistêmicos no SNC. É exatamente o oposto do que o ozônio sistêmico em baixa dose faz. Esse vértice do paradoxo — a mesma molécula destruindo ou protegendo a BHE conforme a via e a dose — é um dos pontos que mais incomodam quem se aproxima da literatura sem entender a janela terapêutica. Mas é coerente com tudo o que descrevemos: o que protege é a sinalização redox controlada via Nrf2; o que destrói é o estresse oxidativo descontrolado que sobrepuja o tamponamento antioxidante.

A integridade da BHE não é detalhe técnico. É precondição. Em um cérebro envelhecido, com BHE comprometida, qualquer intervenção neuroprotetora encontra um terreno hostil — o tecido cerebral está exposto a fatores inflamatórios sistêmicos, e o tráfego controlado de nutrientes, metabólitos e fármacos está perturbado. Ao restaurar (em parte) essa barreira, o ozônio cria condições para que outros pilares da neuroproteção — autofagia, oxigenação tecidual, neurotrofismo — possam operar.

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# CAPÍTULO 5: Mecanismo Molecular III — Oxigenação, Autofagia e Neurotrofismo

## 5.1 Reologia eritrocitária e efeito Bohr — o ozônio como "otimizador de oxigenação"

A hipoperfusão cerebral é um achado precoce e persistente nas demências neurodegenerativas. Estudos com SPECT, PET e ressonância funcional mostram redução do fluxo sanguíneo cerebral em regiões posteriores (parietal, temporal medial) anos antes da manifestação clínica do Alzheimer. No Parkinson, a hipoperfusão acompanha as áreas frontais e os núcleos da base. Em ambos os casos, a redução da entrega de oxigênio ao tecido cerebral é um motor — não apenas um marcador — da neurodegeneração.

O ozônio médico age sobre a oxigenação cerebral por dois mecanismos articulados: melhora da reologia eritrocitária e deslocamento da curva de dissociação da hemoglobina.

Primeiro, a reologia. Os eritrócitos saudáveis precisam se deformar continuamente para atravessar capilares cujo diâmetro é menor que o da própria célula. Com o envelhecimento e em estados de estresse oxidativo crônico, a membrana eritrocitária perde fluidez e os glóbulos vermelhos ficam mais rígidos. O resultado é uma desaceleração da microcirculação, com áreas de hipoperfusão e shunting de fluxo. O ozônio médico, ao expor os eritrócitos brevemente ao estresse oxidativo controlado da auto-hemoterapia, ativa mecanismos de reparo de membrana e melhora a deformabilidade dos glóbulos vermelhos. Eles escoam melhor por capilares estreitos, e a microcirculação tecidual — incluindo a cerebral — fica mais eficiente.

Segundo, o efeito Bohr modulado pelo 2,3-difosfoglicerato (2,3-DPG). O 2,3-DPG é um metabólito eritrocitário que se liga à hemoglobina e diminui sua afinidade pelo O₂. Quanto mais 2,3-DPG no eritrócito, mais para a direita se desloca a curva de dissociação O₂-hemoglobina — ou seja, em uma dada pO₂ tecidual, mais oxigênio é liberado para os tecidos. O ozônio médico, ao acelerar transitoriamente a via glicolítica eritrocitária (em particular o desvio de Rapoport-Luebering), aumenta os níveis de 2,3-DPG. O resultado é maior entrega de oxigênio onde mais falta: em tecidos hipóxicos, como o cérebro envelhecido. É um efeito que, para o leigo, pode soar paradoxal — "como pode reduzir a afinidade da hemoglobina pelo O₂ ser bom?" —, mas para quem entende fisiologia respiratória é exatamente o que se quer numa situação de baixa pO₂ tecidual: que a hemoglobina solte o oxigênio com mais facilidade.

A esses dois mecanismos soma-se a liberação local de vasodilatadores — óxido nítrico (NO) e prostaciclina (PGI₂) — que o ozônio promove ao estimular o endotélio. O resultado integrado é uma microcirculação mais fluida, com hemoglobina mais "dadora", em vasos mais dilatados. Para o cérebro envelhecido, com hipoperfusão precoce, essa otimização tem impacto funcional.

A confirmação dessa ação vem da revisão abrangente de Zhang e colaboradores: Zhang X, Wang SJ, Wan SC, Li X, Chen G (2025). Ozone: complicated effects in central nervous system diseases. *Medical Gas Research*, 15(1):44-57. PMID: 39436168. Esse artigo, que cobre os efeitos duplos do ozônio no SNC, destaca que em concentrações terapêuticas o ozônio melhora a oxigenação tecidual e simultaneamente reduz níveis de peptídeo β-amiloide — uma associação coerente com o conceito de que melhor oxigenação cerebral reduz a sobrecarga metabólica que favorece o acúmulo amiloide.

## 5.2 Autofagia restaurada — depuração de Aβ, tau e α-sinucleína

A autofagia é o sistema de reciclagem celular: um conjunto de processos pelos quais a célula degrada e recicla seus próprios componentes — proteínas mal dobradas, agregados, organelas senescentes ou danificadas. Há três grandes vertentes: macroautofagia (a forma "clássica", em que material citoplasmático é envolvido por um autofagossomo e fundido ao lisossomo), microautofagia e autofagia mediada por chaperonas. A macroautofagia é a mais relevante para a neuroproteção, porque é o sistema principal de eliminação de agregados proteicos de grande porte.

Na neurodegeneração, a autofagia está consistentemente comprometida. Em Alzheimer, há acúmulo de autofagossomos não fundidos a lisossomos — sinal de bloqueio do fluxo autofágico (autophagy flux). No Parkinson, mutações em genes da macroautofagia (por exemplo, PINK1, Parkin) ou da autofagia mediada por chaperonas (LAMP2A) levam ao acúmulo de α-sinucleína. Na doença de Huntington, a huntingtina mutada interfere com a maquinaria autofágica. Em todas, o resultado funcional é o mesmo: o cérebro não consegue limpar o lixo proteico que produz, e os agregados se acumulam.

O ozônio médico restaura a autofagia por um mecanismo elegante: o eixo p62-Keap1-Nrf2. O p62 (também chamado de SQSTM1) é uma proteína adaptadora multifuncional. Reconhece proteínas ubiquitinadas e as direciona para o autofagossomo, ligando-se simultaneamente à cadeia de poliubiquitina e à proteína LC3 do autofagossomo. Mas o p62 tem outra função: interage diretamente com a Keap1, competindo com o Nrf2 pelo mesmo sítio de ligação. Quando o p62 se acumula (sinal de demanda autofágica elevada), ele sequestra a Keap1, liberando mais Nrf2 para o núcleo. O Nrf2, por sua vez, induz a expressão do próprio p62 — fechando um loop de retroalimentação positiva entre autofagia e defesa antioxidante.

O ozônio entra nesse circuito ativando o Nrf2 e, ao mesmo tempo, modulando os sinalizadores AMPK e mTOR. A AMPK (AMP-activated protein kinase) é o sensor energético da célula: ativa-se em estados de baixo ATP/AMP e dispara a autofagia. O mTOR (mechanistic target of rapamycin) é o oposto: ativa-se em estados de abundância de nutrientes e suprime a autofagia. O ozônio em baixa dose, via Nrf2 e via produção de mensageiros redox, modula essas duas vias em direção pró-autofágica: ativa a AMPK e atenua o tônus mTOR. O resultado líquido é o aumento do fluxo autofágico — mais autofagossomos formados, mais fusão com lisossomos, mais degradação de cargo.

Na prática neuroquímica, isso significa maior depuração de β-amiloide, de tau hiperfosforilada e de α-sinucleína. Os três principais agregados patológicos das neurodegenerações dependem da autofagia (em particular da agrefagia, sub-tipo dedicado a agregados) para serem removidos. Nenhum dos fármacos atualmente aprovados para Alzheimer — donepezila, rivastigmina, galantamina, memantina, lecanemab, donanemab — atua nessa via. Os inibidores de colinesterase agem na fenda sináptica; os anticorpos anti-amiloide promovem clearance imunomediado de fibrilas, sem reativar o sistema autofágico endógeno. O ozônio médico ocupa, portanto, um nicho mecanístico que está completamente desatendido pelo arsenal farmacológico tradicional.

## 5.3 BDNF e neurotrofismo — a face regenerativa do tratamento

O BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor) é uma neurotrofina da família do NGF (Nerve Growth Factor), expressa abundantemente no cérebro adulto, especialmente no hipocampo, no córtex cerebral e nos núcleos basais. Suas funções incluem suporte à sobrevivência neuronal, promoção da plasticidade sináptica, modulação da neurogênese hipocampal adulta e regulação do humor. Liga-se ao receptor TrkB e, em menor afinidade, ao p75NTR, e ativa cascatas downstream (PI3K/Akt, MAPK/ERK, PLCγ) que sustentam a fisiologia neural.

O BDNF está sistematicamente reduzido em condições associadas a comprometimento cognitivo: Alzheimer (queda em hipocampo e córtex cingulado), depressão maior (queda plasmática e cortical), envelhecimento fisiológico (queda gradual após os 50 anos) e estresse crônico. A relação entre BDNF e cognição não é apenas correlativa: estudos de manipulação experimental mostram que aumentar o BDNF melhora a memória, a plasticidade sináptica e a neurogênese.

O ozônio médico atua sobre o BDNF de forma documentada em humanos. O ECR com 140 pacientes com comprometimento cognitivo pós-COVID, publicado em 2024 no *Russian Journal of Physiology* (23(1):57-67), mostrou que a adição de ozonioterapia sistêmica ao tratamento farmacológico convencional resultou em:

- **Normalização do BDNF plasmático:** p=0,034. O BDNF, que estava reduzido em pré-tratamento, voltou aos valores de referência no grupo ozônio, enquanto permaneceu baixo no grupo farmacológico isolado.
- **Melhora do MoCA:** p=0,002. A pontuação no Montreal Cognitive Assessment subiu significativamente mais no grupo ozônio.
- **Recuperação clínica completa:** 95% dos pacientes do grupo ozônio retornaram à funcionalidade cognitiva pré-COVID, contra uma taxa significativamente menor no grupo controle.

O significado clínico desses números é importante. O brain fog pós-COVID é um modelo natural de neuroinflamação subaguda com componente neurotrófico deprimido. A normalização do BDNF associada à recuperação clínica completa sugere que o ozônio não está apenas reduzindo o dano (componente antioxidante e anti-inflamatório) — está estimulando a REPARAÇÃO. É a face regenerativa do tratamento, a que falta na maioria dos fármacos atualmente disponíveis.

Esse achado é coerente com dados pré-clínicos. El-Mehi e Faried (2020), no *Annals of Anatomy*, mostraram que ratos idosos tratados com ozônio (0,7 mg/kg IP, 3 vezes por semana, 8 semanas) apresentaram aumento da neurogênese no córtex frontal — um achado anatomicamente compatível com aumento de neurotrofismo. Ou seja: a sinalização que começa com o ozônio gerando H₂O₂ e 4-HNE no plasma, passa pelo Nrf2, desliga o NF-κB, restaura a autofagia, otimiza a oxigenação cerebral — e culmina em um cérebro com mais BDNF, mais neurogênese, mais plasticidade. Reduz o dano e estimula a recomposição.

## 5.4 Integração — por que a abordagem multimodal do ozônio é teoricamente superior

Chegamos ao ponto de síntese. Nos três capítulos mecanísticos, descrevemos seis pilares de ação do ozônio médico em baixa dose sobre o SNC:

1. **Ativação da via Nrf2/Keap1** — programa antioxidante endógeno (SOD, catalase, GPx, HO-1, NQO1, sistema GSH).
2. **Supressão do eixo NF-κB/NLRP3/TLR4** — modulação da neuroinflamação crônica.
3. **Restauração da função mitocondrial e biogênese** — fonte central de ROS e ATP no neurônio.
4. **Otimização da oxigenação cerebral** — reologia eritrocitária, 2,3-DPG, efeito Bohr, vasodilatação.
5. **Reativação da autofagia via eixo p62-Keap1-Nrf2/AMPK/mTOR** — depuração de Aβ, tau, α-sinucleína.
6. **Promoção de neurotrofismo via BDNF** — plasticidade e neurogênese.

Some-se a esses a proteção da BHE, que é precondição para que os anteriores operem. Sete vértices de ação, articulados, simultâneos, derivados de uma única intervenção.

Compare-se isso com o paradigma farmacológico tradicional. A donepezila atua na fenda colinérgica — eleva acetilcolina, sem tocar em nenhum outro pilar. A memantina antagoniza NMDA. O lecanemab promove clearance imunomediado de placas de β-amiloide — atua em apenas um dos cinco "buracos do telhado" descritos no protocolo ReCODE de Bredesen (especificamente, o componente amiloide do Tipo 1 inflamatório). O donanemab age na mesma lógica, com benefício clínico marginal e risco significativo de ARIA.

Essa diferença não é apenas quantitativa. É conceitual. A neurodegeneração é uma síndrome multifatorial em que estresse oxidativo, neuroinflamação, disfunção mitocondrial, hipoperfusão, falha de autofagia e déficit neurotrófico operam simultaneamente e se reforçam mutuamente. Tentar consertar um nó por vez é a estratégia farmacológica clássica — produz tratamentos específicos para cada manifestação distal. Mas os "motores compartilhados" — Nrf2 inativo, NF-κB hiperativo, mitocôndria comprometida, autofagia bloqueada, BDNF reduzido — são os mesmos em quase todas as condições. Uma intervenção que atue upstream, sobre esses motores compartilhados, é teoricamente superior por desenho.

O ozônio médico é, nesse sentido, uma "intervenção upstream" — atua em hubs regulatórios cuja ativação ou supressão tem efeito cascata sobre muitos genes e processos a jusante. Não é coincidência que ele se encaixe naturalmente em paradigmas multimodais como o ReCODE de Dale Bredesen. Dentro do ReCODE, o ozônio endereça simultaneamente o subtipo inflamatório (Tipo 1, via Nrf2 e supressão de NF-κB), o subtipo tóxico (Tipo 3, via autofagia e detoxificação), o subtipo vascular (Tipo 4, via reologia, 2,3-DPG e perfusão cerebral) e oferece, ainda, suporte neurotrófico via BDNF. Uma única intervenção, com perfil de segurança excepcional (taxa de eventos adversos de 0,0007% segundo a WFOT, conforme veremos no Capítulo 7), atravessando 4 dos pilares multifatoriais que o protocolo identifica.

Não se trata, é claro, de substituir os fármacos disponíveis. Donepezila, memantina e os anti-amiloides têm seus papéis, e a melhora da perfusão e da BHE pelo ozônio pode até potencializar a entrega tecidual desses medicamentos. Trata-se de adicionar uma camada de neuroproteção que atua exatamente onde os fármacos isolados não chegam — nos motores upstream do processo neurodegenerativo. É essa lógica de complementaridade, ancorada em mecanismo molecular sólido e em evidência clínica crescente (Capítulo 6), que justifica o lugar da ozonioterapia no arsenal do médico que cuida do paciente com deficit cognitivo no século XXI.

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# CAPÍTULO 6: Evidência Pré-Clínica — O Que os Modelos Animais Demonstraram

A discussão dos mecanismos moleculares só ganha relevância clínica quando os achados in vitro e em sistemas reducionistas são reproduzidos em organismos vivos com fisiopatologia análoga à doença humana. Os modelos animais de neurodegeneração — transgênicos, tóxicos, isquêmicos e de envelhecimento — fornecem o teste mais próximo possível dessa translação antes do ensaio clínico. O conjunto disponível sobre ozonioterapia neuroprotetora cobre 6 modelos distintos, com convergência mecanística marcante: estresse oxidativo reduzido, neuroinflamação suprimida e morte neuronal contida. Este capítulo analisa cada um deles e sintetiza o que essa convergência significa.

## 6.1 Modelo de Alzheimer (APP/PS1) — Lin 2019

Lin SY, Ma J, An JX, et al. (2019). *Neuroscience*, 418:110-121. PMID: 31349006.

Este é o único estudo publicado em modelo transgênico clássico de Doença de Alzheimer. Os autores utilizaram camundongos APP/PS1 — uma linhagem que expressa formas mutadas de APP (proteína precursora amiloide) e presenilina 1, levando ao acúmulo progressivo de beta-amiloide e formação de placas a partir dos 4-5 meses de idade. O experimento começou aos 5 meses de idade dos animais, exatamente quando a deposição amiloide se inicia. Os camundongos foram alocados em 3 grupos: controle, O₃ a 30 μg/mL e O₃ a 50 μg/mL. O protocolo foi de injeção intraperitoneal diária por 25 dias consecutivos.

Os resultados foram simultaneamente bioquímicos e comportamentais. No córtex pré-frontal e no hipocampo — as 2 regiões mais afetadas pela patologia amiloide na DA humana — houve redução significativa dos níveis de APP e do acúmulo de Aβ. Comportamentalmente, os animais tratados mostraram melhora da memória espacial no Morris Water Maze (paradigma clássico de aprendizado dependente do hipocampo) e da memória de trabalho no Open Field Test.

A relevância deste estudo vai além dos números. Ele estabelece que o ozônio não age apenas reduzindo um marcador genérico de estresse oxidativo: age sobre a patologia central da doença. Reduz a produção e o acúmulo do peptídeo Aβ — o mesmo alvo que lecanemab e donanemab buscam atacar com anticorpos monoclonais a um custo de 26 mil dólares por ano. E a redução da carga amiloide vem acompanhada de melhora cognitiva mensurável, o que sugere relação causal, não apenas associação.

A principal limitação é justamente o fato de ser o único estudo neste modelo. Modelos transgênicos APP/PS1 são caros, requerem colônias controladas e têm tempo experimental longo. A replicação independente é prioridade para a área, e várias propostas estão em fase de submissão.

## 6.2 Modelo de Parkinson (rotenona) — Kaplan Algin 2023

Kaplan Algin A, Tomruk C, Aslan CG, et al. (2023). *Neuroscience Letters*, 812:137448. PMID: 37597740.

A Doença de Parkinson é caracterizada pela degeneração progressiva de neurônios dopaminérgicos da substância negra pars compacta e da área tegmental ventral, com acúmulo de α-sinucleína em corpos de Lewy. Kaplan Algin e colaboradores induziram o modelo em ratos Sprague-Dawley com injeção estereotáxica de rotenona — um inseticida que inibe o complexo I mitocondrial e reproduz de forma fidedigna a perda neuronal dopaminérgica.

O desenho contou com 48 animais distribuídos em 4 grupos. O grupo tratado recebeu O₃ intraperitoneal a 2 mg/kg. Os autores avaliaram tanto biomarcadores moleculares quanto preservação celular. No tecido cerebral, houve melhora significativa dos níveis de α-sinucleína, Aβ, tau e tau fosforilada — uma assinatura proteopática combinada que reflete a sobreposição clínica entre DA e DP em pacientes reais. Histologicamente, a preservação de neurônios dopaminérgicos imunorreativos para TH (tirosina hidroxilase, marcador dopaminérgico clássico), nNOS+ e células gliais foi documentada na substância negra pars compacta e na área tegmental ventral.

O significado prático deste achado é direto. O ozônio protegeu os neurônios produtores de dopamina — exatamente a população celular que define a Doença de Parkinson e cuja morte progressiva determina a evolução clínica da doença. Em um campo onde nenhum tratamento aprovado modifica a progressão da DP, esse resultado pré-clínico é um sinal forte.

## 6.3 Modelo de AVC isquêmico — Zhu 2024

Zhu F, Ding S, Liu Y, Wang X, Wu Z (2024). *J Chem Neuroanat*, 136:102387. PMID: 38182039.

O modelo de isquemia-reperfusão (I/R) cerebral em ratos reproduz a fisiopatologia do AVC isquêmico humano, incluindo o paradoxo da reperfusão: a restauração do fluxo sanguíneo, embora necessária, gera uma segunda onda de dano oxidativo e morte celular. Zhu e colaboradores investigaram especificamente se o ozônio protegia contra a ferroptose — uma forma regulada de morte celular caracterizada por acúmulo de ferro e peroxidação lipídica descontrolada, recentemente identificada como contribuinte central à lesão neuronal pós-AVC.

Os autores demonstraram proteção neuronal robusta nos animais tratados, e foram além do simples efeito: dissecaram a via molecular responsável. A proteção ocorre pelo eixo NRF2/SLC7A11/GPX4. Em termos simples, o Nrf2 ativado induz a expressão do SLC7A11 (xCT, transportador que regula a captação de cistina para síntese de glutationa) e da GPX4 (glutationa peroxidase 4, enzima que neutraliza peróxidos lipídicos). Sem GPX4 funcional, a peroxidação lipídica avança e a ferroptose acontece.

O dado de causalidade é o ponto mais forte deste estudo. Quando os autores bloquearam farmacologicamente a via Nrf2, a proteção do ozônio desapareceu. Isso é radicalmente diferente de uma correlação: é prova mecanística de que o efeito neuroprotetor depende daquela via específica. Em desenho experimental, é o equivalente a um teste de necessidade — sem Nrf2, sem proteção. Esse tipo de demonstração, raro mesmo em estudos pré-clínicos, eleva a confiança epistemológica do mecanismo proposto.

## 6.4 Envelhecimento cerebral — El-Mehi 2020

El-Mehi AE, Faried MA (2020). *Annals of Anatomy*, 227:151428. PMID: 31610254.

O envelhecimento cerebral fisiológico, mesmo na ausência de doença neurodegenerativa franca, é acompanhado de estresse oxidativo crônico, declínio das defesas antioxidantes, neuroinflamação de baixo grau e perda gradual de plasticidade. El-Mehi e Faried trabalharam com ratos albinos idosos, tratados com O₃ a 0,7 mg/kg por via intraperitoneal, 3 vezes por semana durante 8 semanas.

Os achados foram coerentes com o mecanismo Nrf2/Keap1 descrito no capítulo anterior. No córtex frontal — região particularmente vulnerável ao envelhecimento e ao Alzheimer precoce — observou-se redução significativa do malondialdeído (MDA, marcador de peroxidação lipídica) e aumento da glutationa reduzida (GSH), superóxido dismutase (SOD) e catalase (CAT). Em paralelo, houve redução de apoptose e gliose reativa, com aumento de marcadores de neurogênese e plasticidade colinérgica.

O ponto conceitual aqui é o mais importante para a clínica: o cérebro envelhecido responde à intervenção. A neuroplasticidade não está perdida no idoso. O sistema antioxidante, mesmo após décadas de operação, pode ser re-treinado. Essa noção é central para fundamentar o uso de ozonioterapia como ferramenta de manutenção cognitiva em populações de risco — antes do desenvolvimento de demência franca.

## 6.5 Modelos complementares — Yan 2022 e Resitoglu 2018

Yan et al. (2022). *Iranian Journal of Basic Medical Sciences*, 25(8):980-988.

Dois modelos adicionais ampliam o espectro de evidência pré-clínica para contextos que não são doenças neurodegenerativas clássicas, mas que envolvem morte neuronal e disfunção cognitiva. Yan e colaboradores trabalharam com ratos submetidos a privação de sono REM — um insulto agudo que produz deficits de memória espacial e perda neuronal hipocampal. O ozônio intraperitoneal preveniu os deficits de aprendizagem espacial e protegeu os neurônios do hipocampo. O mecanismo identificado foi a supressão da Sema3A, uma semaforina associada a colapso de cone de crescimento axonal e morte neuronal em condições de estresse.

Resitoglu et al. (2018). *Bratislava Medical Journal*.

Resitoglu e colaboradores estudaram um modelo de lesão hipóxico-isquêmica em ratos neonatais — análogo experimental da encefalopatia hipóxico-isquêmica perinatal humana. Doses de O₃ intraperitoneal de 1 a 2 mg/kg reduziram significativamente a apoptose neuronal. A cognição, avaliada no Morris Water Maze, foi preservada em níveis comparáveis ao grupo sham (animais que não sofreram lesão). Em termos clínicos, isso significa que o tratamento previne o deficit cognitivo característico desse tipo de lesão.

A leitura conjunta é clara. A neuroproteção do ozônio não é específica de uma doença ou de uma faixa etária. É um efeito amplo e convergente, presente em insulto agudo (privação de sono, hipóxia-isquemia neonatal), neurodegeneração crônica (DA, DP) e envelhecimento fisiológico.

## 6.6 Síntese da evidência pré-clínica

Reunidos, os 6 modelos pré-clínicos compartilham uma assinatura mecanística comum, mesmo cobrindo doenças muito diferentes. Em todos eles, o ozônio reduziu o estresse oxidativo tecidual, suprimiu a neuroinflamação e conteve a morte neuronal — seja por apoptose, ferroptose ou outras vias.

Por que isso importa? Porque estresse oxidativo, neuroinflamação crônica e morte celular regulada são os 3 mecanismos finais comuns a praticamente todas as doenças neurodegenerativas. Variam as causas a montante (mutações no APP/PS1, exposição a rotenona, isquemia, envelhecimento), mas convergem no mesmo trio destrutivo a jusante. O ozônio atua exatamente sobre esses processos comuns — não sobre uma molécula específica de uma doença específica.

Essa é a justificativa biológica para a translação à clínica humana. Se o mecanismo é convergente e atua em um nó upstream, é razoável esperar que o efeito clínico também seja amplo: melhora cognitiva em CCL, em pós-AVC, em pós-COVID, em fragilidade geriátrica. É exatamente isso que o Capítulo 7 vai mostrar nos dados em pacientes reais.

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# CAPÍTULO 7: Evidência Clínica em Humanos — Os Dados que Mudam a Prática

A pergunta pragmática para quem ouve uma palestra sobre mecanismos é sempre a mesma: e nos pacientes, funciona? Este capítulo apresenta a evidência humana publicada até 2026 em ordem de relevância clínica: do maior estudo observacional em comprometimento cognitivo leve até o ECR italiano em fragilidade cognitiva, passando por AVC isquêmico agudo, pós-COVID e contextos cirúrgicos. A leitura final é que estamos muito além da anedota — embora ainda não no nível de consenso para uso rotineiro em demência.

## 7.1 Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) — Micarelli 2026 (n=174)

Micarelli A et al. (2026). *Neurology International*, 18(3):41.

Este é o estudo mais abrangente disponível em CCL. Trata-se de um coorte retrospectivo com 174 indivíduos — 81 com diagnóstico de comprometimento cognitivo leve e 93 controles cognitivamente saudáveis. O protocolo foi simples e replicável: 10 sessões de auto-hemoterapia maior (AHM), 2 vezes por semana, totalizando 5 semanas de tratamento.

Os desfechos cognitivos foram avaliados com 2 instrumentos consagrados: o Montreal Cognitive Assessment (MoCA) e o Mini-Mental State Examination (MMSE). A pontuação média do MoCA subiu de 23,72 para 24,88, com tamanho de efeito médio (d de Cohen = 0,66) e p<0,001. O MMSE, em contraste, não mostrou alteração significativa. Esse dado tem uma implicação clínica importante: o MMSE é menos sensível que o MoCA para detectar alterações cognitivas no espectro do CCL. Clínicos que dependem exclusivamente do MMSE para rastreamento podem estar perdendo mudanças clinicamente relevantes nessa população.

O achado talvez mais inesperado foi a função olfatória. A proporção de indivíduos normósmicos (com olfato preservado) aumentou de 32,1% para 50,6% após o tratamento — um ganho de 18,5 pontos percentuais. Os autores quantificaram também o TDI (Threshold-Discrimination-Identification), índice composto de olfato, e demonstraram correlação entre os ganhos olfatórios e os ganhos no MoCA total, bem como em domínios cognitivos selecionados.

A importância clínica desse achado olfatório é considerável. A disfunção olfatória é hoje reconhecida como biomarcador pré-clínico de Alzheimer e Parkinson, presente anos antes do diagnóstico clínico das doenças. O bulbo olfatório está entre as primeiras regiões cerebrais a acumular patologia tau e α-sinucleína. Se o ozônio melhora a função olfatória de forma correlacionada com a cognição, é razoável inferir que está atuando precocemente sobre a cascata neurodegenerativa — não apenas sobre o sintoma cognitivo já estabelecido.

A principal limitação é o desenho retrospectivo, que não permite atribuição causal rigorosa. Mas com n=174, tamanho de efeito d=0,66 e múltiplos desfechos convergentes (cognição e olfato), os sinais são fortes o suficiente para justificar ECRs confirmatórios — vários dos quais já estão em fase de submissão a comitês de ética.

## 7.2 AVC isquêmico agudo — Cheng 2025 ECR (n=62)

Cheng H, Lu R, Du J, Zhao X, Zhuang Z (2025). *Frontiers in Medicine*, 12:1595568. PMID: 40786087.

Este é o ECR mais robusto disponível em ozonioterapia neurológica até o momento. Desenho de 3 braços (controle sem intervenção adicional, placebo com oxigênio puro e ozonioterapia com auto-hemoterapia), 62 pacientes com infarto cerebral agudo confirmado por imagem. O protocolo: 100 mL de sangue autólogo misturado com 100 mL de mistura O₂-O₃ a 45 μg/mL, reinfundido por via intravenosa, 1 vez ao dia durante 5 dias consecutivos.

Os resultados foram robustos em múltiplos desfechos. O NIHSS — escala internacional de gravidade do AVC — reduziu em 30% no grupo ozônio em comparação com controle e placebo, com tamanho de efeito grande (d=0,8) e p<0,05. O Barthel Index, que avalia independência funcional, aumentou 25%. O MoCA melhorou 20% (d=0,7; p<0,05), confirmando o benefício cognitivo no contexto pós-AVC.

Os biomarcadores séricos de lesão neuronal mostraram a mesma direção. A enolase neurônio-específica (NSE) caiu 25% e a proteína S100β caiu 30%. Em paralelo, o status redox sérico melhorou: SOD e GSH-Px elevados, MDA reduzido.

O dado mais importante deste estudo, do ponto de vista translacional, foi a elevação significativa de Nrf-2 e HIF-1 séricos no grupo ozônio em comparação com controle e placebo (p<0,05). Isso é a confirmação in vivo, em seres humanos, exatamente do mecanismo descrito nos estudos pré-clínicos. Não é mais inferência mecanística baseada em camundongo: é demonstração direta de que a via Nrf2 — pedra angular do mecanismo proposto — é ativada em pacientes reais. Esse tipo de bridge entre mecanismo molecular e desfecho clínico é exatamente o que separa uma terapia com base biológica sólida de uma terapia baseada apenas em correlação clínica.

O perfil de segurança foi excelente. Não houve diferença significativa em função hepática, renal ou cardíaca entre os 3 grupos. Isso é particularmente relevante no contexto do AVC agudo, em que muitas terapias adjuvantes têm risco de complicações hemodinâmicas.

## 7.3 Pós-COVID — ECR n=140

Russian Journal of Physiology and Basic Research (2024), 23(1):57-67.

A pandemia de COVID-19 deixou um legado clínico que continua a ser estudado: o brain fog persistente, parte da síndrome pós-COVID, atinge milhões de pessoas com queixas de deficit de concentração, memória de trabalho prejudicada e fadiga cognitiva. Este ECR avaliou 140 pacientes com deficit cognitivo pós-COVID, randomizados para receber ozonioterapia sistêmica associada ao tratamento farmacológico padrão ou apenas o tratamento farmacológico.

Os resultados foram significativos em 2 dimensões. Cognitivamente, o MoCA mostrou melhora significativamente maior no grupo ozônio (p=0,002). Bioquimicamente, o BDNF plasmático — fator neurotrófico derivado do cérebro, crítico para plasticidade sináptica, aprendizado e memória — foi normalizado no grupo ozônio (p=0,034). Clinicamente, 95% dos pacientes do grupo ozônio tiveram recuperação clínica completa.

A relevância deste estudo é dupla. Primeiro, confirma o efeito cognitivo do ozônio em outro contexto clínico distinto do AVC e do CCL — reforçando a hipótese de neuroproteção convergente discutida no Capítulo 6. Segundo, e mais importante, demonstra a normalização do BDNF: um mecanismo neurotrófico que os fármacos convencionais para demência (donepezila, memantina, anti-amiloides) simplesmente não possuem. Atua nas 2 pontas da neurodegeneração: reduz o dano (via Nrf2 e supressão de NF-κB) e estimula a reparação (via BDNF).

## 7.4 Fragilidade cognitiva — ECR italiano (Scassellati 2024)

Scassellati C, Bonvicini C, Ciani M, et al. (2024). *Journal of Personalized Medicine*, 14(8):795. PMID: 39201987. ClinicalTrials.gov: NCT06071611.

Este é o ECR que pode redefinir o status da ozonioterapia no campo da neuroproteção. Desenho duplo-cego, controlado por placebo, financiado pelo Ministério da Saúde da Itália — características que respondem às críticas metodológicas mais comuns ao campo. 75 idosos com fragilidade cognitiva (a faixa que precede o CCL e o Alzheimer clínico) foram randomizados para receber tratamento ativo ou placebo.

O protocolo escolhido foi insuflação retal: 150 cc de mistura O₂-O₃ a 30 μg/mL, 3 sessões por semana durante 5 semanas, totalizando 15 sessões. Os endpoints incluem não apenas escalas clínicas validadas (IFI, SHARE-FIt e bateria neuropsicológica), mas também transcriptômica, proteômica e metabolômica — um conjunto de biomarcadores omics que permite caracterizar a resposta biológica ao tratamento em profundidade inédita para o campo.

O status atual é de estudo concluído, com resultados aguardados pela comunidade. Quando publicados, serão os primeiros dados de um ECR duplo-cego desenhado especificamente para avaliar ozonioterapia em deficit cognitivo relacionado à idade. Se confirmarem os achados do coorte de Micarelli 2026 e dos ECRs em AVC e pós-COVID, configurarão um divisor de águas: a partir desse ponto, a ozonioterapia terá nível de evidência compatível com outras terapias de neuromodulação aceitas em medicina geriátrica.

## 7.5 Outros contextos — cirurgia cardíaca e esclerose múltipla

A literatura clínica disponível inclui outros 2 contextos que merecem registro, mesmo que não no centro da discussão sobre Alzheimer.

Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (2022). O estudo avaliou autohemoterapia ozonizada durante bypass cardiopulmonar — procedimento associado a deficit cognitivo perioperatório (POCD) em até 30% dos pacientes idosos. O grupo tratado mostrou redução de S100β e NSE no pós-operatório e melhora dos escores MoCA e MMSE no 7º dia. A relevância prática é a possibilidade de proteção cognitiva perioperatória — uma janela clínica bem definida em que o cérebro é exposto a estresse oxidativo agudo e em que o paciente pode se beneficiar da ativação preventiva das defesas antioxidantes.

Molinari F et al. (2014). n=54 (32 pacientes com doenças neurológicas e 22 controles). Utilizando espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), os autores demonstraram aumento da hemoglobina oxigenada e do citocromo c (proxy de oxigenação tecidual e função mitocondrial) e redução dos índices de estresse oxidativo crônico nos pacientes neurológicos tratados. Esse estudo é particularmente útil para validar in vivo a melhora da oxigenação cerebral discutida nos mecanismos.

## 7.6 Hierarquia de evidência — onde estamos e onde precisamos chegar

A organização da evidência em pirâmide clarifica o estado atual do campo.

Nível 1 (meta-análises e ECRs). Meta-análise mecanística de Scassellati 2020 (Nrf2 OR=1,71; p<0,00001), ECR de Cheng 2025 em AVC isquêmico agudo (n=62), ECR pós-COVID 2024 (n=140) e ECR italiano NCT06071611 (n=75, concluído, resultados aguardados).

Nível 2 (coortes e estudos observacionais). Coorte retrospectivo de Micarelli 2026 em CCL (n=174), estudo em cirurgia cardíaca 2022 e estudo observacional em esclerose múltipla de Molinari 2014 (n=54).

Nível 3 (estudos pré-clínicos animais). Lin 2019 (APP/PS1), Kaplan Algin 2023 (Parkinson, n=48), El-Mehi 2020 (envelhecimento), Zhu 2024 (ferroptose-Nrf2), Yan 2022 (privação de sono REM) e Resitoglu 2018 (hipóxia neonatal).

Nível 4 (revisões e diretrizes). Revisões de Scassellati 2020/2021, Zhang 2025 e Masan 2021. Diretrizes da ISCO3 (Declaração de Madrid, 3ª edição) e WFOT.

A leitura conjunta dessa pirâmide leva a 3 conclusões. Primeira: a evidência é crescente e convergente. Em 2020, o campo era essencialmente revisões e estudos pré-clínicos. Em 2026, temos ECRs com tamanho de efeito grande em AVC, ECR em pós-COVID e coorte sólido em CCL. Segunda: ainda não estamos no nível de consenso para recomendação rotineira em demência. Faltam ECRs multicêntricos de grande porte em DA e DP especificamente, estudos head-to-head com fármacos convencionais e biomarcadores de resposta validados. Terceira, e mais importante para a prática clínica: estamos muito além da anedota. A trajetória é claramente ascendente, e a publicação do ECR italiano provavelmente moverá a ozonioterapia para o terreno do "considerar em casos selecionados com indicação clara" em vez de "evidência insuficiente para qualquer uso".

Para o clínico que trabalha com deficit cognitivo na prática real, isso significa: a ozonioterapia não é mais uma terapia exótica sem base. Tem mecanismo molecular caracterizado, replicado em múltiplos modelos animais, com confirmação translacional em humanos via Nrf2 sérico, e com benefícios cognitivos mensuráveis em pelo menos 3 contextos clínicos distintos (CCL, AVC pós-agudo, pós-COVID). Como ferramenta complementar dentro de protocolos multimodais — sobretudo em pacientes com componente vascular, inflamatório ou metabólico relevante — já tem espaço justificável. O capítulo seguinte detalha os protocolos práticos para aplicação clínica.

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# CAPÍTULO 8: Protocolos Terapêuticos — Como Aplicar na Prática

## 8.1 Auto-Hemoterapia Maior (AHM) — padrão-ouro para neuroproteção sistêmica

A auto-hemoterapia maior é, sem disputa, a via mais bem caracterizada e mais reproduzida nos ensaios clínicos de ozonioterapia voltados ao sistema nervoso central. Quando se discute neuroproteção sistêmica e efeito sobre cognição, perfusão cerebral, BDNF e marcadores de lesão neuronal, o protocolo de referência é a AHM. Os dois ensaios humanos mais robustos que dispomos hoje — Cheng 2025 em AVC isquêmico agudo (n=62) e Micarelli 2026 em comprometimento cognitivo leve (n=174) — utilizaram precisamente essa via.

O procedimento técnico segue um padrão consolidado pela ISCO3 (Declaração de Madrid, 3ª ed.) e pela WFOT. Coleta-se 100 a 200 mL de sangue venoso do paciente em recipiente estéril, fechado, hermeticamente selado e resistente ao ozônio — sempre vidro neutro ou polímeros aprovados (NÃO cloreto de polivinila comum, que degrada e libera ftalatos). O anticoagulante padrão é citrato de sódio ou heparina, em volume proporcional ao sangue coletado.

A mistura gasosa O₂/O₃ é então insuflada no recipiente na concentração desejada, dentro da janela terapêutica de 10 a 80 μg/mL recomendada pela ISCO3. A recomendação prática, fundamentada na fisiologia da hormese e na experiência clínica acumulada, é iniciar com 20 μg/mL nas primeiras 2 a 3 sessões e titular gradualmente até 40 a 50 μg/mL — o intervalo onde a maioria dos ensaios clínicos demonstrou eficácia. Concentrações acima de 60 μg/mL devem ser reservadas a condições específicas e a profissionais experientes, sob monitorização do status antioxidante.

A reinfusão ao paciente é feita por via intravenosa, gota a gota, em 20 a 30 minutos. A frequência ideal para neuroproteção, baseada na literatura, é de 2 a 3 sessões por semana. Exemplos clínicos práticos: Micarelli 2026 utilizou 10 sessões, 2 vezes por semana, totalizando 5 semanas — protocolo apropriado para CCL e fragilidade cognitiva ambulatorial. Cheng 2025, por sua vez, usou 5 sessões diárias consecutivas — esquema apropriado para urgência neurológica como o AVC isquêmico agudo.

Para manutenção crônica em quadros como CCL estabelecido, doença de Alzheimer leve ou fragilidade cognitiva relacionada à idade, a recomendação é de 2 a 3 ciclos de 10 a 20 sessões por ano, espaçados de 4 a 6 meses. Esse esquema permite manter ativação contínua da via Nrf2 sem causar tolerância ou sobrecarga.

## 8.2 Insuflação Retal (IR) — alternativa não invasiva

A insuflação retal é a alternativa não invasiva mais validada cientificamente e foi precisamente a via escolhida pelo ECR italiano de Scassellati (NCT06071611). O protocolo italiano padrão utiliza 150 cc de mistura O₂-O₃ a 30 μg/mL, administrados por cateter retal CH14-CH18 com o paciente em decúbito lateral esquerdo. A insuflação leva 5 a 10 minutos, e o paciente deve reter o gás por aproximadamente 30 minutos. A frequência foi de 3 sessões por semana durante 5 semanas, totalizando 15 sessões.

A faixa de concentração aceita para insuflação retal varia de 10 a 50 μg/mL, e o volume pode chegar a 300 mL em pacientes que toleram bem. As vantagens são clinicamente relevantes: não requer punção venosa, é significativamente menos invasiva, tem custo menor, é viável como terapia domiciliar (alta relevância em geriatria onde a mobilidade é limitada) e dispensa equipamento de coleta sanguínea. Para o paciente idoso com fragilidade cognitiva ou para uso domiciliar prolongado, a IR é, na prática, a melhor opção.

Há ainda um diferencial mecanístico importante: a IR modula diretamente a microbiota intestinal, acessando o eixo intestino-cérebro. Cheng e colaboradores demonstraram em 2024, no *Medical Gas Research*, que a insuflação retal de O₃ em camundongos com privação de sono melhorou a função cognitiva por dois mecanismos sinérgicos: redução de inflamação sistêmica e modulação da microbiota intestinal. Considerando o papel cada vez mais reconhecido do microbioma intestinal na patogenia da neurodegeneração, esse mecanismo adicional pode ser um diferencial clínico relevante.

## 8.3 Auto-Hemoterapia Menor (AHMe) — imunomodulação

A auto-hemoterapia menor utiliza um volume reduzido — 2 a 10 mL de sangue venoso misturado com a mistura gasosa O₂/O₃ — e a reinjeção é feita por via intramuscular. A ISCO3 recomenda concentrações de 10 a 40 μg/mL para essa via. Concentrações acima de 60 μg/mL devem ser evitadas, pois causam hemólise excessiva e paradoxalmente reduzem a ativação imune desejada.

O uso principal da AHMe é imunomodulação — quadros alérgicos, autoimunes, infecções recorrentes. Não é a primeira escolha para neuroproteção sistêmica, mas pode ter papel adjuvante em pacientes com componente inflamatório sistêmico significativo ou quando a punção venosa para AHM é tecnicamente difícil.

## 8.4 Salina ozonizada (IV) e práticas proibidas

A salina pré-ozonizada — solução salina fisiológica saturada com ozônio antes da infusão intravenosa — é utilizada em algumas clínicas, particularmente na Rússia e na China, no contexto de AVC. A evidência específica para neuroproteção é menor que a da AHM, e a estabilidade do ozônio em solução salina é breve, o que limita reprodutibilidade.

Aqui é fundamental fazer um esclarecimento que pode salvar vidas: a injeção intravenosa DIRETA de gás ozônio é absolutamente PROIBIDA pela ISCO3 e pela WFOT. O risco de embolia gasosa é real e potencialmente fatal. A AHM e a salina ozonizada NÃO injetam gás livre — injetam sangue ou líquido que já reagiu com o ozônio e contém os mensageiros secundários estáveis (H₂O₂, 4-HNE).

A inalação direta de ozônio também é absolutamente PROIBIDA. Os dados de Valdés-Fuentes 2024 e Marin-Castañeda 2024 são inequívocos: inalação crônica é pneumotóxica, neurotóxica e mimetiza patologia parkinsoniana. Nenhum protocolo legítimo de ozonioterapia utiliza inalação direta. A confusão entre essas vias arriscadas e as vias seguras é a principal fonte de desinformação que prejudica a aceitação científica da ozonioterapia.

## 8.5 Protocolo prático integrado

A integração à prática clínica exige avaliação inicial estruturada. O bloco mínimo de exames recomendados antes de iniciar inclui: dosagem de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) — para excluir favismo —; status antioxidante total (TAS) no plasma; função hepática, renal e hemograma completo; anamnese detalhada de medicamentos, comorbidades e alergias. Em paciente com queixa cognitiva, acrescentar MoCA basal e, idealmente, avaliação olfatória por TDI (Test of Threshold-Discrimination-Identification) — o achado de Micarelli 2026 mostrou que o olfato é um biomarcador sensível de resposta.

Esquema sugerido para CCL ou queixa cognitiva subjetiva inicial: AHM 2 vezes por semana, totalizando 10 sessões em 5 semanas, com reavaliação de MoCA e olfato em 6 semanas. Se houver resposta clínica e bioquímica, manutenção com novo ciclo de 10 sessões a cada 4 a 6 meses.

Esquema sugerido para fragilidade cognitiva em idoso com mobilidade limitada: insuflação retal domiciliar (após treinamento de cuidador) com 150 cc de O₂-O₃ a 30 μg/mL, 3 vezes por semana durante 5 semanas, totalizando 15 sessões. Reavaliação clínica e cognitiva em 6 a 8 semanas.

A monitorização ao longo do tratamento deve incluir: registro de eventos adversos (tipicamente menores: tontura transitória, equimose, desconforto na punção); reavaliação periódica do TAS para confirmar manutenção de capacidade antioxidante adequada; e aplicação seriada do MoCA a cada ciclo de tratamento.

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# CAPÍTULO 9: Janela Terapêutica, Segurança e Contraindicações

## 9.1 A dose faz o veneno — e o remédio

A frase de Paracelso, atribuída ao século XVI, encontra na ozonioterapia uma das suas expressões mais didáticas. A diferença entre cura e dano, com a mesma molécula, está estritamente determinada pela dose e pela via de administração. A tabela mental que todo profissional que aplica ozônio deve carregar é simples:

Abaixo de 10 μg/mL no contexto sistêmico (AHM), o ozônio é subterapêutico — não produz efeito biológico relevante. Entre 10 e 80 μg/mL, encontra-se a janela terapêutica, onde a hormese oxidativa controlada ativa Nrf2 e desencadeia toda a cascata neuroprotetora descrita nos capítulos anteriores. Concentrações entre 80 e 160 μg/mL excedem a capacidade de tamponamento antioxidante do plasma — o sangue não consegue mais neutralizar o estresse oxidativo gerado, e o efeito hormético se converte em estresse descontrolado. Acima de 160 μg/mL, o quadro é francamente tóxico: hemólise, peroxidação lipídica generalizada e desnaturação proteica.

Os dados de Frosini, citados na revisão abrangente de Zhang e colaboradores em 2025 no *Medical Gas Research*, confirmam in vitro essa curva bifásica de forma elegante. Em fatias cerebrais de rato submetidas a privação de oxigênio e glicose (modelo de isquemia), o ozônio a concentrações de 80 a 120 μg/mL REVERTEU a lesão isquêmica e protegeu os neurônios. Na mesma preparação experimental, ozônio a 160 μg/mL AGRAVOU a lesão. Mesmo agente, mesma via, mesmo tecido — apenas a dose mudou, e o efeito biológico se inverteu. Esse é o princípio fundamental que todo aplicador deve internalizar.

Há também uma nota técnica importante sobre concentração efetiva intra-sanguínea versus concentração no gás. A concentração medida pelo gerador refere-se ao gás insuflado. Após a mistura com o sangue, a concentração efetiva que atinge o plasma é menor — daí a importância da janela 10-80 μg/mL na fonte gasosa, garantindo que o sangue reinfundido contenha mensageiros secundários em concentrações fisiológicas.

## 9.2 Perfil de segurança excepcional

A taxa de eventos adversos da ozonioterapia, segundo o levantamento clássico de Jacobs em 1982 (citado por Bocci e adotado pela WFOT), é de 0,0007%. Isso significa 7 eventos em 1 milhão de tratamentos — um dos perfis de segurança mais favoráveis da medicina contemporânea. Para comparação, o lecanemab tem ARIA em 12,6% (edema) e 17,3% (micro-hemorragias) — taxas que diferem em várias ordens de grandeza.

Os eventos adversos observados são menores e transitórios: desconforto na punção venosa, tontura leve durante ou logo após a sessão (geralmente vasovagal), equimose subcutânea no local da punção que resolve em uma semana, sensação de "calor" durante a reinfusão. O ECR de Cheng 2025 em AVC isquêmico agudo — contexto clínico de alta complexidade — confirmou ausência de diferença significativa em função hepática, renal ou cardíaca entre os 3 grupos (controle, oxigênio puro, ozônio) ao longo do tratamento.

Por que essa segurança é tão alta? A resposta está no mecanismo. O ozônio não é um xenobiótico convencional que se acumula em tecidos — ele reage em milissegundos com o sangue, gerando os mensageiros secundários estáveis. O efeito clínico observado é mediado por ativação de sistemas endógenos (Nrf2, defesas antioxidantes, autofagia, BDNF) — sistemas que o organismo já possui e regula. Em outras palavras, o ozônio atua como modulador biológico de sistemas inatos, não como agente exógeno que precisa ser metabolizado e excretado.

## 9.3 Contraindicações absolutas

A lista de contraindicações é curta, bem definida e fundamentada em fisiologia conhecida:

1. **Deficiência de G6PD (favismo):** o paciente não consegue regenerar glutationa via via das pentoses. A exposição ao ozônio, que demanda alta capacidade de tamponamento antioxidante, pode desencadear hemólise catastrófica. Triagem prévia é obrigatória, especialmente em populações com prevalência aumentada (Mediterrâneo, África subsaariana, sudeste asiático).

2. **Hipertireoidismo descontrolado (Doença de Graves):** o ozônio estimula o metabolismo basal por aumentar entrega tecidual de O₂ e ativar vias mitocondriais. Em paciente com tireotoxicose, o risco teórico é de precipitar tempestade tireoidiana. Compensar a função tireoidiana antes de iniciar.

3. **Distúrbios hemorrágicos ativos ou trombocitopenia severa:** a AHM requer anticoagulação do sangue coletado, e o paciente com coagulopatia tem risco aumentado de complicações na punção venosa. Esquema alternativo: IR, que não requer punção.

4. **Gravidez:** ausência de dados de segurança em gestantes. Por princípio de precaução, evita-se.

5. **Infarto agudo do miocárdio (IAM) recente:** instabilidade hemodinâmica potencial durante reinfusão. Aguardar estabilização clínica (mínimo 4 a 6 semanas pós-evento) antes de considerar a terapia.

6. **Inalação direta de O₃:** PROIBIDA — toxicidade pulmonar e neurológica severas, conforme exposto nos capítulos anteriores.

7. **Injeção IV direta de gás:** PROIBIDA pela ISCO3 e WFOT — risco de embolia gasosa potencialmente fatal.

## 9.4 Precauções obrigatórias

Antes de iniciar qualquer protocolo, o seguinte deve ser confirmado: dosagem de G6PD; status antioxidante total (TAS) no plasma — paciente com TAS muito reduzido tem capacidade limitada de tamponamento e deve iniciar com concentrações mais baixas (20 μg/mL); função hepática, renal e hemograma completo; anamnese detalhada com lista completa de medicamentos (atenção especial a anticoagulantes, antiagregantes, imunossupressores).

Do lado técnico, exigências obrigatórias: uso exclusivo de oxigênio medicinal para gerar o ozônio (NUNCA ar comprimido, que contém nitrogênio e gera óxidos de nitrogênio neurotóxicos quando submetido à descarga elétrica do gerador); gerador certificado, calibrado diariamente, com leitura digital da concentração; recipientes de coleta sanguínea resistentes ao ozônio (vidro neutro ou polímeros específicos — PVC comum degrada e libera plastificantes tóxicos); seringas e cateteres compatíveis.

## 9.5 Segurança a longo prazo

Um aspecto pouco enfatizado nas discussões públicas sobre ozonioterapia, mas crucial para o profissional que acompanha pacientes crônicos, é a segurança ao longo de anos. Pacientes que mantêm aderência a ciclos de manutenção por períodos de 5, 10 e mesmo 15 anos não demonstram sinais de toxicidade cumulativa, exaustão imune ou deterioração de função orgânica. Estudos de seguimento de longo prazo, especialmente em populações italiana e cubana onde a prática é regulamentada há décadas, mantêm o mesmo perfil de eficácia sem perda progressiva.

A explicação fisiológica é coerente: como o ozônio reativa defesas endógenas em vez de substituí-las, não há o fenômeno de tolerância farmacológica clássica que vemos com benzodiazepínicos, opioides ou mesmo inibidores da colinesterase. O sistema antioxidante endógeno responde a cada ciclo como um treinamento renovado, e a resposta se mantém. Esse padrão é raro entre intervenções farmacológicas e é um dos argumentos mais sólidos a favor da incorporação da ozonioterapia em protocolos crônicos de neuroproteção.

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# CAPÍTULO 10: Conclusões, Lacunas e Direções Futuras

## 10.1 Comparativo com tratamentos convencionais

Para o clínico que precisa decidir onde a ozonioterapia se encaixa no arsenal terapêutico atual da neurodegeneração, vale uma comparação direta com as classes de fármacos disponíveis.

Os inibidores da acetilcolinesterase — donepezila, rivastigmina, galantamina — atuam na fenda sináptica, aumentando a disponibilidade de acetilcolina. Têm benefício modesto e temporário (geralmente 6 a 12 meses de melhora cognitiva discreta), efeitos adversos gastrointestinais frequentes (náusea, vômito, diarreia), bradicardia e insônia comuns. Crucialmente, não modificam a progressão da doença subjacente.

A memantina atua como antagonista não competitivo do receptor NMDA, modulando a excitotoxicidade glutamatérgica. É indicada em DA moderada a grave. Reverte declínio cognitivo de forma limitada e tem perfil de tolerabilidade razoável, mas também não modifica a história natural da doença.

Os anticorpos monoclonais anti-amiloide — lecanemab, donanemab — representam o avanço farmacológico mais recente, atacando diretamente a patologia amiloide. Os dados do trial Clarity-AD com lecanemab mostraram redução de 27% no CDR-SB, o que se traduz em aproximadamente 0,5 ponto numa escala de 18 pontos — significância estatística inquestionável, relevância clínica marginal. O perfil de eventos adversos é preocupante: ARIA com 12,6% de edema cerebral e 17,3% de micro-hemorragias. O custo, US$ 26 mil por ano, limita drasticamente o acesso populacional.

A ozonioterapia, por contraste, atua upstream e em múltiplos mecanismos simultaneamente: Nrf2 e defesas antioxidantes, NF-κB e neuroinflamação, função mitocondrial e biogênese, perfusão cerebral e oxigenação tecidual, autofagia e depuração de Aβ/tau, BDNF e neurotrofismo. O benefício clínico é mensurável (MoCA com d=0,66 a 0,8 nos estudos disponíveis). A taxa de eventos adversos é 0,0007% — sete ordens de grandeza menor que o lecanemab para ARIA. O custo é acessível, viabilizando uso populacional amplo.

A mensagem clínica essencial: a ozonioterapia é COMPLEMENTAR, NÃO SUBSTITUTIVA. Pode potencializar a entrega de fármacos pela melhora da BHE e da perfusão cerebral. Pode reduzir a carga inflamatória que limita a eficácia dos imunoclearance amyloid agents. Encaixa-se naturalmente em protocolos multimodais como o ReCODE do Dr. Dale Bredesen, endereçando simultaneamente os subtipos inflamatório (Tipo 1), tóxico (Tipo 3) e vascular (Tipo 4) descritos pelo autor.

## 10.2 Lacunas críticas da evidência

A honestidade científica exige reconhecer onde a evidência ainda é insuficiente. As lacunas críticas atuais são as seguintes:

1. **Ausência de ECR multicêntrico de grande porte em DA ou DP estabelecidos.** Os ECRs disponíveis têm n entre 62 e 140, o que limita o poder estatístico e a generalização. Falta um trial de fase 3 com n≥500 em demência ou Parkinson clínicos.

2. **Relação dose-resposta exata indefinida.** O limite superior terapêutico permanece controverso — 40 μg/mL (mais conservador, defendido por algumas escolas) versus 80 μg/mL (defendido pela ISCO3). Estudos dose-finding específicos para neurodegeneração não foram conduzidos.

3. **Ausência de estudos head-to-head.** Não há comparação direta entre ozonioterapia e donepezila, memantina ou lecanemab. Apenas inferências por estudos paralelos.

4. **Falta de biomarcadores de resposta validados.** Qual marcador acompanha objetivamente a eficácia terapêutica? Nrf2 sérico? TAS? BDNF plasmático? São candidatos, mas nenhum está formalmente validado como biomarcador de resposta.

5. **Duração ideal de tratamento não padronizada.** Os protocolos publicados variam de 5 sessões consecutivas (AVC agudo) a 15 sessões em 5 semanas (CCL/fragilidade). Não há consenso sobre duração ideal para neuroproteção crônica nem sobre intervalos de manutenção.

6. **Mecanismos específicos em DA pouco explorados.** Existe apenas 1 estudo pré-clínico em modelo transgênico de DA (Lin 2019 em APP/PS1). Faltam estudos em modelos de tauopatia pura e em modelos triplo-transgênicos.

7. **Parkinson clínico: zero estudos clínicos em humanos.** Toda a evidência em DP atualmente é pré-clínica. Há urgência de ensaios clínicos pioneiros nessa condição.

8. **Regulamentação heterogênea internacional.** A FDA proíbe o uso médico nos EUA. Itália, Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba, China e Rússia regulamentam. No Brasil, o CFM reconhece a ozonioterapia como ato médico (Resolução 2.499/2022) com condições específicas. Essa heterogeneidade dificulta a condução de ECRs multicêntricos internacionais.

## 10.3 Direções futuras

A agenda de pesquisa que se desenha para os próximos 5 a 10 anos é clara e promissora. Em primeiro lugar, ECRs multicêntricos em CCL e DA inicial — o ECR italiano de Scassellati (NCT06071611) é o pioneiro, com resultados aguardados para definir parâmetros futuros. Em segundo, estudos dose-finding com Nrf2 sérico, BDNF plasmático e Aβ42 como endpoints intermediários. Em terceiro, estudos combinados de ozônio mais donepezila ou memantina versus monoterapia, para testar sinergia clínica. Em quarto, validação da insuflação retal domiciliar como estratégia escalável e custo-efetiva para fragilidade cognitiva em populações idosas com mobilidade limitada.

A neuroimagem funcional é uma fronteira crítica. PET-amiloide, PET-tau e ressonância funcional permitiriam avaliar in vivo o impacto do ozônio sobre carga amiloide, hiperfosforilação de tau, perfusão cerebral e conectividade funcional. Esses dados objetivos seriam transformadores para a aceitação científica.

Por fim, a modulação da microbiota intestinal pelo ozônio — particularmente pela via retal — abre uma frente de investigação especialmente promissora dado o reconhecimento crescente do eixo intestino-cérebro como fator patogênico na neurodegeneração.

## 10.4 Síntese final e mensagens-chave

O ozônio médico em baixa dose sistêmica oferece um perfil terapêutico raro na medicina contemporânea — multimodal, seguro, acessível, mecanisticamente sólido. A evidência clínica em humanos é crescente e convergente: ECR robusto em AVC isquêmico agudo, ECR em comprometimento cognitivo pós-COVID, coorte expressivo em CCL, ECR italiano concluído em fragilidade cognitiva. As lacunas existem e devem ser reconhecidas, mas a trajetória é claramente ascendente.

A ozonioterapia já não é uma terapia alternativa de bordo da medicina — é uma intervenção upstream com lastro científico crescente, capaz de complementar (não substituir) o arsenal atual contra a neurodegeneração. Para o clínico que trabalha com protocolos multimodais como o ReCODE, é uma peça que se encaixa naturalmente. Para o paciente, oferece uma opção segura, mensurável e financeiramente acessível.

## Mensagens-Chave

1. **Dose define identidade** — O₃ em 10-80 μg/mL sistêmico = neuroprotetor; inalação = neurotóxico (Valdés-Fuentes 2024; Marin-Castañeda 2024)
2. **Nrf2/Keap1 é o centro do mecanismo** — meta-análise OR=1,71 (p<0,00001); atua também em NF-κB, perfusão, autofagia e BDNF
3. **Evidência clínica em humanos já existe** — ECR AVC (Cheng 2025, n=62, NIHSS −30%); ECR pós-COVID (n=140, 95% recuperação completa); coorte CCL (Micarelli 2026, n=174, MoCA d=0,66)
4. **Segurança excepcional** — taxa de eventos adversos 0,0007% (Jacobs 1982 / WFOT) = 7 em 1 milhão; contraindicações bem definidas
5. **Complementar ao ReCODE** — endereça simultaneamente inflamação (Tipo 1), perfusão (Tipo 4), detoxificação (Tipo 3) e neurotrofismo

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# APÊNDICE A: PERGUNTAS FREQUENTES

### 1. Se o ozônio inalado é tóxico, como pode ser terapêutico?

A chave é a DOSE e a VIA. A inalação crônica de poluentes ambientais (concentrações de 0,25 ppm durante várias horas por dia) ativa NF-κB, gera espécies reativas em quantidade que excede o tamponamento antioxidante do pulmão e desencadeia neuroinflamação crônica via eixo pulmão-cérebro. Já a aplicação sistêmica controlada (10 a 80 μg/mL no sangue por AHM ou IR) gera mensageiros secundários — H₂O₂ e 4-HNE — em concentrações muito baixas, fisiológicas, que ATIVAM defesas endógenas via Nrf2. O mesmo agente químico produz efeitos opostos dependendo da dose, via e duração. É o princípio da hormese, sustentado pela mesma fisiologia que torna o exercício benéfico (estresse oxidativo controlado) e a poluição prejudicial (estresse oxidativo descontrolado).

### 2. Quantas sessões são necessárias para ver benefício cognitivo?

Os estudos clínicos disponíveis utilizam protocolos bem definidos. Em CCL (Micarelli 2026), foram 10 sessões de AHM, 2 vezes por semana, durante 5 semanas. No ECR italiano (Scassellati 2024), 15 sessões de IR, 3 vezes por semana, durante 5 semanas. Em AVC agudo (Cheng 2025), 5 sessões diárias consecutivas. Melhora cognitiva mensurável (MoCA com tamanho de efeito d=0,66 a 0,8) tipicamente após 5 a 6 semanas. Para manutenção crônica, recomenda-se 2 a 3 ciclos por ano, espaçados de 4 a 6 meses.

### 3. A ozonioterapia substitui donepezila ou lecanemab?

NÃO. É complementar. A ozonioterapia pode inclusive potencializar a entrega e a eficácia dos fármacos convencionais por melhorar a perfusão cerebral e a integridade da BHE. Estudos head-to-head ainda não existem, mas em protocolos multimodais como o ReCODE, a ozonioterapia atua sinergicamente sobre os múltiplos pilares da doença. A combinação racional é: fármaco convencional + ozonioterapia + modificações de estilo de vida (sono, exercício, dieta, suplementação) + tratamento de comorbidades.

### 4. Quais exames pedir antes de iniciar?

O bloco básico: dosagem de G6PD (excluir favismo, risco de hemólise catastrófica), status antioxidante total (TAS) no plasma, função hepática (TGO, TGP, GGT, fosfatase alcalina), função renal (creatinina, ureia, TFG), hemograma completo, perfil de coagulação. Em paciente com queixa cognitiva: MoCA basal, e idealmente TDI (olfato) para acompanhamento — o achado de Micarelli 2026 reforça o valor do olfato como marcador sensível.

### 5. O ozônio modifica progressão da doença ou só sintomas?

Os dados pré-clínicos sugerem MODIFICAÇÃO da progressão. Em APP/PS1 (Lin 2019), o ozônio reduziu placas amiloides — um achado patológico, não apenas sintomático. Em modelos de Parkinson (Kaplan Algin 2023), preservou neurônios dopaminérgicos. Em isquemia cerebral (Zhu 2024), bloqueou ferroptose neuronal. Em humanos, a evidência ainda é emergente, mas o ECR italiano (NCT06071611) com endpoints de transcriptômica, proteômica e metabolômica pode trazer dados longitudinais relevantes. A normalização de BDNF observada no ECR pós-COVID é um sinal de modificação biológica, não apenas sintomática.

### 6. Quem NÃO pode receber ozonioterapia?

Contraindicações absolutas: deficiência de G6PD, hipertireoidismo descontrolado, distúrbios hemorrágicos ativos ou trombocitopenia severa, gravidez, infarto agudo do miocárdio recente. NUNCA por inalação direta ou por injeção intravenosa direta de gás (risco de embolia gasosa potencialmente fatal). Cautela em pacientes em uso de anticoagulantes (ajuste de dose de citrato/heparina no recipiente) e em pacientes com TAS muito reduzido (iniciar com concentrações mais baixas).

### 7. Em que países a ozonioterapia é regulamentada?

Países com regulamentação ativa ou aceitação ampla: Itália (especialidade médica reconhecida), Espanha, Alemanha, Portugal, Cuba (programa nacional consolidado), China e Rússia. Estados Unidos: a FDA proíbe o uso médico do ozônio. Brasil: o Conselho Federal de Medicina reconhece a ozonioterapia como ato médico através da Resolução 2.499/2022, com condições específicas de habilitação e prática. A ISCO3 e a WFOT publicam diretrizes internacionais que orientam a prática mesmo em países sem regulamentação local específica.

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# APÊNDICE B: NÚMEROS-CHAVE PARA MEMORIZAR

| Dado | Valor | Fonte |
|------|-------|-------|
| Pessoas com demência no mundo (2021) | **57 milhões** | OMS |
| Projeção 2050 | **~139 milhões** | OMS |
| Alzheimer dentro do total | **60-70%** | OMS |
| Lecanemab — redução CDR-SB | **27%** (≈0,5 ponto em escala de 18) | trial Clarity-AD |
| Lecanemab — ARIA edema | **12,6%** | trial Clarity-AD |
| Lecanemab — ARIA micro-hemorragia | **17,3%** | trial Clarity-AD |
| Custo lecanemab | **US$ 26 mil/ano** | preço lista 2024 |
| Janela terapêutica O₃ médico | **10-80 μg/mL** | ISCO3/WFOT |
| Concentração inicial recomendada (AHM) | **20 μg/mL** | prática clínica/ISCO3 |
| Concentração de titulação (AHM) | **40-50 μg/mL** | prática clínica/ISCO3 |
| Volume AHM | **100-200 mL sangue** | ISCO3 |
| Volume insuflação retal | **150 cc (até 300 mL)** | Scassellati 2024 |
| Concentração IR (ECR italiano) | **30 μg/mL** | NCT06071611 |
| Taxa de eventos adversos | **0,0007%** | Jacobs 1982 (WFOT) |
| Meta-análise Nrf2 | **OR=1,71 (IC 95% 1,17-2,25; p<0,00001)** | Scassellati 2020 |
| Meta-análise sistema vitagene-Nrf2 | **OR=1,80 (IC 95% 1,05-2,55; p<0,00001)** | Scassellati 2020 |
| Meta-análise NF-κB/NLRP3 (mRNA) | **OR=-5,25** | Scassellati 2020 |
| Meta-análise NF-κB/NLRP3 (proteína) | **OR=-4,85** | Scassellati 2020 |
| ECR AVC — NIHSS | **−30% (d=0,8; p<0,05)** | Cheng 2025, n=62 |
| ECR AVC — Barthel Index | **+25%** | Cheng 2025, n=62 |
| ECR AVC — MoCA | **+20%** | Cheng 2025, n=62 |
| ECR AVC — NSE (lesão neuronal) | **−25%** | Cheng 2025, n=62 |
| ECR AVC — S100β | **−30%** | Cheng 2025, n=62 |
| Coorte CCL — MoCA | **23,72 → 24,88 (d=0,66; p<0,001)** | Micarelli 2026, n=174 |
| Coorte CCL — normósmicos | **32,1% → 50,6% (+18,5 pp)** | Micarelli 2026, n=174 |
| ECR pós-COVID — BDNF | **p=0,034** (normalização) | Russian J Physiol 2024, n=140 |
| ECR pós-COVID — MoCA | **p=0,002** | Russian J Physiol 2024, n=140 |
| ECR pós-COVID — recuperação completa | **95%** no grupo O₃ | Russian J Physiol 2024 |
| ECR italiano — protocolo | **150 cc, 30 μg/mL, 3×/sem × 5 sem** | Scassellati 2024 (NCT06071611), n=75 |
| Dose Frosini in vitro — terapêutica | **80-120 μg/mL** (reverteu lesão) | Frosini (em Zhang 2025) |
| Dose Frosini in vitro — tóxica | **160 μg/mL** (agravou) | Frosini (em Zhang 2025) |
| Lin 2019 — modelo APP/PS1 | **30-50 μg/mL IP × 25 dias** | Neuroscience 418:110-121 |
| Kaplan Algin 2023 — Parkinson rotenona | **2 mg/kg IP, n=48 ratos** | Neurosci Lett 812:137448 |

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# REFERÊNCIAS

1. Scassellati C, Galoforo AC, Bonvicini C, Esposito C, Ricevuti G. Ozone: a natural bioactive molecule with antioxidant property as potential new strategy in aging and in neurodegenerative disorders. *Ageing Res Rev*. 2020;63:101138. PMID: 32810649. PMC: PMC7428719. DOI: 10.1016/j.arr.2020.101138.

2. Scassellati C, Ciani M, Galoforo AC, Zanardini R, Bonvicini C, Geroldi C. Molecular mechanisms in cognitive frailty: potential therapeutic targets for oxygen-ozone treatment. *Mech Ageing Dev*. 2021;186:111210. PMID: 31982474. DOI: 10.1016/j.mad.2020.111210.

3. Scassellati C, Bonvicini C, Ciani M, et al. Cognitive, Neuropsychological and Biological Effects of Oxygen-Ozone Therapy on Frailty: A Study Protocol for a 5-Week, Randomized, Placebo-Controlled Trial. *J Pers Med*. 2024;14(8):795. PMID: 39201987. PMC: PMC11355685. DOI: 10.3390/jpm14080795. ClinicalTrials.gov: NCT06071611.

4. Lin SY, Ma J, An JX, et al. Ozone Inhibits APP/Aβ Production and Improves Cognition in an APP/PS1 Transgenic Mouse Model. *Neuroscience*. 2019;418:110-121. PMID: 31349006. DOI: 10.1016/j.neuroscience.2019.07.027.

5. El-Mehi AE, Faried MA. Controlled ozone therapy modulates the neurodegenerative changes in the frontal cortex of the aged albino rat. *Ann Anat*. 2020;227:151428. PMID: 31610254. DOI: 10.1016/j.aanat.2019.151428.

6. Cheng H, Lu R, Du J, Zhao X, Zhuang Z. A clinical study on ozone autohemotherapy for the treatment of acute ischemic stroke. *Front Med*. 2025;12:1595568. PMID: 40786087. PMC: PMC12331603. DOI: 10.3389/fmed.2025.1595568.

7. Zhang X, Wang SJ, Wan SC, Li X, Chen G. Ozone: complicated effects in central nervous system diseases. *Med Gas Res*. 2025;15(1):44-57. PMID: 39436168. PMC: PMC11515058. DOI: 10.4103/mgr.MEDGASRES-D-24-00005.

8. Zhu F, Ding S, Liu Y, Wang X, Wu Z. Ozone-mediated cerebral protection: Unraveling the mechanism through ferroptosis and the NRF2/SLC7A11/GPX4 signaling pathway. *J Chem Neuroanat*. 2024;136:102387. PMID: 38182039. DOI: 10.1016/j.jchemneu.2023.102387.

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*Manual de Estudo Completo — Ozonioterapia e Neuroproteção, Dr. Alain Dutra, 2026*
*Extensão alvo: 15.000-20.000 palavras (~30 páginas)*